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Pedro Pastoriz brinca com as possibilidades da arte e joga “Pingue-Pongue com o Abismo”

Foto: Tuane Eggers com montagem de Talita Hoffmann.

Por: Renan Bernardi

“Estou contigo em Rockland / Onde você grita numa camisa-de-força que está perdendo o jogo do verdadeiro pingue-pongue com o abismo” diz o poema “Uivo”, de Allen Ginsberg. Poema cujo o artista Pedro Pastoriz leu em sua adolescência e que até hoje traz em sua memória.

Tão presente na sua memória e ainda fazendo tanto sentido com suas ideias em 2020, que é extraído dele o título de seu mais recente álbum, Pingue-Pongue com o Abismo, lançado nessa quinta-feira (23/07).

E é interpretando isso com a sua criatividade que Pedro brinca com esse espaço infinito da arte e joga esse pingue-pongue com o abismo, levando sua música para a poesia, para o cinema, para o teatro, para aquela fita cassete que precisa ser rebobinada, e até mesmo para os comerciais televisivos de outros tempos.

Somando três álbuns de estúdio com a banda Mustache e os Apaches, Pedro chega agora também ao terceiro trabalho solo, depois de já ter lançado os álbuns 1, de 2015 e Projeções, de 2016.

Enfatizando a importância que as imagens têm neste trabalho, mesmo através da música, os contos que Pedro narra em Pingue-Pongue com o Abismo nos mostram as paisagens, gestos, memórias, sensações, movimentos e objetos com muito cuidado em serem detalhados para se tornarem visíveis (e palpáveis?) para os nossos ouvidos.

Essa abordagem visual que o álbum parece propor já começa desde antes de seu lançamento, nos Comitês de Quarentena que ele vem soltando no YouTube desde março desse ano.

Misturando esquetes, stop-motions e, é claro, breves explicações e versões intimistas da maioria das músicas que saíram no trabalho, os Comitês acabaram criando esse universo imaginário e imagético (talvez cinematográfico?) que Pingue-Pongue com o Abismo nos traz em suas letras e arranjos que me lembra trilhas sonoras.

Replay

Assim como a imagem, outro elemento que se destaca no álbum é justamente a memória.

O eu-lírico da maioria das canções está sempre nos contando sobre um acontecimento, uma lembrança, mesmo que de sensações (às vezes até de forma sinestésica, como em “Fricção”), evocando suas memórias, mesmo que imaginárias.

Em outros momentos, ele está fazendo anúncios absurdos (“Cachorro Replay”; “Replay Esportes”; “Resposta Sobre Hostel Replay”) em vinhetas, como se emulasse os comerciais de uma transmissão televisiva, algo também nostálgico e fantástico.

Fundindo esses dois mundos, em “Teatro Replay” Pedro propõe um grupo de teatro fictício que encenaria as suas memórias e as traria ao palco. Um dos momentos mais criativos do álbum, que me lembrou o enredo do filme “After Life”, do diretor japonês Hirokazu Kore-eda.

A repetitiva colocação da palavra replay, assim como a própria noção do pingue-pongue, também são elementos que evocam o passado, tornando essas palavras quase sinônimos da memória afetiva de Pedro – compartilhada com a de tantos brasileiros.

No Pingue-pongue, tudo volta. No Replay, tudo se repete.

Spoken Word ou Declamação

Outro elemento que se soma à estética visual do álbum são as faixas em spoken-word que, por trazerem essa camada de declamação, reforçam a expressividade dos textos e transportam a canção para uma cena, novamente, teatral.

Encontramos isso em “Lydia Réplica”, com Lydia Del Picchia falando sob volumosos batuques; Em “Faroeste Dançante”, onde Fausto Fawcett faz introduções e intervenções; e também nos momentos finais do álbum, com “Sol”, interpretada pelo próprio Pedro.

Nesse momento de isolamento social onde o álbum é lançado, Pedro nos propõe um olhar íntimo, descontraído e até um pouco nonsense das coisas que, mesmo habitando a nossa memória (o lugar que nos resta para nos aliviar do cotidiano), se transformam, se confundem e ganham formatos abertos e infinitos quando buscamos retratar no presente.

Pingue-Pongue com o Abismo justifica essa brincadeira com as possibilidades de cada ato desde o seu nome, mas nem por isso ela deixa de ser um trabalho a ser levado a sério. Talvez, justamente por esse tom cômico da obra é que se consegue perceber toda a proposta imersiva – e mesmo assim, sem desfecho – que se passa na cabeça de Pedro Pastoriz e que aqui, de forma excelente, ele buscou transformar em arte.

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