O marujo d’água doce

As aventuras de um ex-balseiro do Rio Uruguai

Por Marina Oliveira

Década de 40 até fim de 60, o Rio Uruguai, que corta terras de Santa Catarina com o Estado do Rio Grande do Sul, teve grande importância econômica para região e foi a fonte de sobrevivência de famílias que ali viviam.

O ganha pão vinha da atividade extrativista e dos períodos de cheia do Uruguai, momento importante para formação econômica do Oeste.

Um tempo marcado por histórias inspiradoras.

“Veio a enchente, o Uruguai transbordou, vai dar serviço prá gente. Vou soltar minha balsa no rio, vou rever maravilhas que ninguém descobriu”. Já disse o compositor, Cenair Maicá.

Num fim de uma tarde quente do mês de maio, desembarquei em frente a uma casa alta de dois pisos. Embaixo, faltando reboco na parede de alvenaria, em cima, madeira com a tinta roxa já descascando. No canto esquerdo encontro uma escada de ferro. A tinta deu lugar à ferrugem, vestígios da passagem do tempo. Ela faz duas curvas antes de me levar ao segundo andar. Já no alto, me deparo com uma área rodeada de plantas: orquídeas, violetas, rosas, espada de São Jorge, samambaias e gerânios vermelhos, rosas e brancos. Algumas cadeiras de madeira, já desgastadas, compõem o cenário. O chão é tão limpo que vejo minha camisa cor de laranja refletida no azulejo escuro. Ao lado da porta de ferro, que me leva à sala, observo o quadro de um homem de batina. Por alguns instantes não reconheço. É o Papa João Paulo II.

Havíamos marcado o encontro para às 18h. Por imprudência, cheguei às 18h10. “Estamos te esperando. Cada carro que passava na rua o homem ia ver se era você”. Visto que o movimento da rua é intenso, o homem levou um cansaço.

Na porta, um casal. Os cabelos brancos denunciam a idade avançada. Rosa, a anfitriã, me recebe já com a cuia de chimarrão em mãos. No rosto, um sorriso amarelo e valioso. Seu incisivo lateral é de ouro.

Há poucos centímetros dali um senhor de olhos cor azul celeste, magrelo, trajando uma calça de malha, me convida para conhecer a casa. Ele é João. Pequena em dimensões, mas grande em histórias, por dentro, a casa de madeira leva tinta verde nas paredes. Possui sala e cozinha no mesmo espaço, divididos apenas por um degrau.

Enquanto comentamos sobre o calor daquela tarde de outono, observo os detalhes que compõem a cozinha. Todos os móveis carregam marcas do tempo. A pia é de inox, com balcão de quatro portas em cima, duas embaixo e mais 4 gavetas.

Há alguns copos que aguardam para serem lavados. Ao lado, um fogão a lenha preparado para o inverno. A mesa de seis lugares está posta entre os cômodos.

Degrau acima chegamos na sala. Há dois sofás, de três e dois lugares. O casal senta no maior, logo, me dirijo ao menor. Enquanto observo o segundo espaço, Rosa faz algumas marchas para destrancar o chimarrão. A TV de 32 polegadas estilo “caixão de abelha” permanece todo tempo desligada. Enquanto penso no próximo assunto para puxar com o casal, observo sua estante de mdf cor marfim. No meio está a TV, em cima uma bíblia aberta. Ao lado uma vela acesa.

Sem nenhum espaço vago, a estante está lotada de bibelôs, a maioria religiosos. Há, pelo menos, três imagens de Nossa Senhora Aparecida. Um São Jorge, e alguns anjos de gesso.

Os porta-retratos de família também ganham espaço. Há os avós com os netos. Só os netos, (alguns) pois o casal possui mais de 40. Também tem fotos do casal e dos filhos. Num cantinho, um prato decorado com a mensagem: “Bodas de ouro, 50 anos de casamento”.

Do outro lado uma cesta de madeira com linhas de tricô e crochê cor branca, vermelha, azul, cinza e rosa. Passatempo de dona Rosa. Numa parede observo um quadro com uma fila de pessoas. São os filhos do casal.

Penso em perguntar de quem se trata, Rosa se antecipa e cita um a um o nome dos 12 filhos: “Lúcia, José, Adão, Arlindo, Atílio, Oscar, Eva, João, Pedro, Marli, Jandira e Maria Luiza”

Quase sem fôlego, arrematou: “Naquela época não tinha televisão”. Rimos.

Voltando à casa, uma cortina de renda cor bege divide a sala dos cômodos mais íntimos. Entramos num corredor apertado e escuro. A porta do meio é aberta e sou apresentada ao quarto de visitas. Ali encontro uma cama de solteiro, um bidê de madeira e cortinas brancas. Ao lado da cama um tapete de crochê também branco.

Não nos demoramos ali e voltamos ao corredor, uma segunda porta é aberta. Um pouco maior que o primeiro, o quarto é escuro e possui apenas uma cama de casal e uma cômoda. Deitada sobre um edredom azul, está Marli, umas das filhas do casal que está passando um tempo com os pais. Muito magra e debilitada, Marli possui uma doença degenerativae precisa de cuidados especiais. Com os olhos fixos na filha, Rosa pega em sua mão e acaricia, como se a filha voltasse a ser uma criança indefesa que precisa de sua proteção.

A situação é delicada e nova para mim, não sei como reagir. Olho para as duas e abro um sorriso, apesar da situação, é bonita a forma afetuosa com que se tratam. Em seguida rosa me convida a voltar para sala. Nos despedimos de Marli e logo aguardo para conhecer o terceiro quarto. Com a porta fechada, Rosa aponta com o dedo indicador e diz que ali é o quarto do casal. Por algum motivo não me é apresentado.

De volta à sala, me sento no sofá amarelo queimado e fico de frente para o casal. Tímidos, trocamos alguns olhares, até que me encorajo e pergunto: E então seu João, me conta um pouco sobre a sua vida: como era no tempo em que trabalhou com as balsas?

Com a cuia na mão esquerda, ele faz um breve silêncio. Me fita por alguns instantes e começa a tagarelar. A mão direita treme sem parar, devido a um problema que vem sofrendo já faz algum tempo. “Não é nada grave”, insiste.

Na pele é possível perceber as marcas que o tempo e o trabalho na roça e no rio lhe causaram. Como ele mesmo diz: está “frangido”.

Aos 87 anos, João ainda é muito ativo e falante, a primeira coisa que me conta é sobre as duas quedas que sofreu naquele dia:

“Pois acho que to ficando velho, hoje caí duas vezes. Na primeira tropecei e fui de bruço no chão. Levantei, dei mais uns passos e fui pro chão de novo, não sei o que está acontecendo, devo estar ficando velho”.

Descente de italianos, João nasceu em Nonoai-RS e teve cinco irmãos. É o filho do meio, o único ainda vivo. Os pais foram agricultores, plantavam erva-mate, cana e viviam da atividade extrativista da madeira.

Foi naquele vilarejo no RS, do outro lado do Uruguai, hoje conhecido como Nonoai, que conheceu sua esposa. Foram vizinhos desde a infância. Ela ajudava nos afazeres domésticos e ele trabalhava na roça.

Na adolescência mudaram-se para o lado catarinense e foram novamente vizinhos. Ela foi morar com os avós e ele continuou com os pais.

Na juventude, ela aos 18, ele aos 22, resolveram casar e deram início a vida a dois dois.

“Nós fomos e somos muito felizes no nosso casamento. Criamos nossos filhos comendo mandioca com lentilha, pouca roupa e pés descalços.Eu casei com a mulher mais linda do mundo, é linda até hoje. Pra mim, casamento é destino”. Com as bochechas coradas, ela sorri e diz: “A menina quer saber das balsa, não mude de assunto”.

Deixo o casal à vontade para contar sua história. Interrompo apenas quando algo não parece ser claro.

O mate segue a roda e é minha vez de degustar. Enquanto tomo o primeiro gole, com gosto de chá de camomila, João começa a contar sobre suas viagens de balsa. Em meados dos anos 60 a família vivia à beira do Rio Uruguai, onde sobreviviam da agricultura e da madeira. As viagens de balsa eram rotina dos homens daquela região.

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Ilustração de Alexsandro Gnovatto

João participou de nove viagens. Enquanto a cheia não chegava, trabalhavam na construção da balsa e da agricultura. As viagens duravam cerca de oito dias. Nas suas experiências, João sempre atuou como remador. Utilizava um barrote de três polegadas para se defender das ondas.

As balsas eram feitas com aglomerado de troncos, toras ou tábuas de madeira, reunidas em formato de jangada. Eram utilizadas madeira natural de cedro, louro, pinheiro, canela, entre outros, que por si flutuam na água. As toras possuíam mais de 10 metros de comprimento. Cerca de 10 a 15 troncos eram amarrados uns aos outros com cipó ou arame galvanizado.

Quando estava pronta, a balsa chegava a 130/150 metros de comprimento. Quando não eram surpreendidos pelo tempo, construíam um rancho em cima para dormir e cozinhar.

Para comer faziam um fogo em cima de caixa de terra, comiam peixe que pescavam e alimentos que levavam de casa: mandioca, feijão, e o que mais a terra dava.

Ao chegar no destino a madeira era vendida e os tripulantes voltavam para casa de carona. A época de lançar as balsas na água iniciava no mês de junho e seguia até setembro. No verão, ocasionalmente, ocorriam viagens no período de chuva. As épocas de cheia eram consideradas benção de Deus, pois eram períodos em que as famílias mais ganhavam dinheiro.

A bordo da balsa seguiam cerca de 16 homens, um patrício e seus peões. Ná época o patrício era indispensável para seguir viagem. Homem esperto, conhecia tudo sobre balsas, o rio e seus perigos, era ele quem conduzia os peões viagem a dentro. Ficava sempre apostos na ponta da bolsa.

Era o comandante da viagem, considerada uma profissão renomada. Para o Casal Batista, períodos de viagem de balsa era tempo de bastante dinheiro. João ganhava cerca 800 mil réis por viagem. Mas eram também tempos difíceis.

“A gente tinha que ir e largar o conforto de casa, a mulher nova e bonita com as crianças, para viajar, passar frio e às vezes fome”.

Ao longo dos anos que esteve a bordo, João presenciou diversas cenas. Naquela noite em que conversávamos ele relembrou um episódio que nunca saíra da sua memória. Viu um colega de viagem ser engolido pelas ondas. Infortunadamente, enroscou as pernas numa corda e foi levado pela correnteza. Não havia nada a ser feito, ao cair no rio, não tem volta.

Mas nem todos os momentos foram de tristeza. Um certo dia, um de seus colegas, o nome João não lembra, mas sim a imagem de um amigo que foi beber água e serviu-se da chaleira e saciou a sede. Minutos depois João pegou a chaleira para fazer o mesmo, mas algo estava trancando a saída da água. Ele abriu e deparou-se com um pedaço de excremento dentro.

“A água que eles utilizam para fazer suas necessidades é a mesma em que bebiam e faziam comida”, debocha Rosa.

Enquanto o patriarca viajava, Rosa ficava em casa cuidando dos filhos e trabalhando na roça. Ela plantava e colhia cana, depois fazia doces para vender.

Em 1965 o casal lembra do “dilúvio”. É assim que as pessoas que viviam às margens do Uruguai se referem a cheia que aconteceu em agosto daquele ano. O rio subiu cerca de 25 metros de seu nível normal e levou casas de dezenas de famílias.

A casa dos Batista não foi atingida e serviu de abrigo para diversos amigos e vizinhos que perderam o lar.

“O dilúvio pegou as casas, as balsas, os chiqueiros de porcos, as galinhas, arrancou tudo. Não chegou na nossa casa por muito pouco. Então pudemos ajudar quem perdeu tudo. Enchemos a casa de vizinhos até passar a enchente.

Ficamos dois dias até o rio descer e limpar o barro que ficou. Depois veio a neve”.

A neve atingiu a região de Chapecó e durou cerca de dois dias. Foi a maior nevasca já registrada. “A vida não é fácil, mas também não é tão difícil. Dá pra ir levando, só não pode desacorçoar”. Em meados de 1956, João lembra a vez em que a família perdeu a casa durante um incêndio.

“Ficamos dois meses comendo só feijão com farinha, três vezes ao dia”.

Para recomeçar construímos uma casa de chão batido. Os vizinhos ajudaram trazendo pedaços de tábua. Meses depois, após vender umas sacas de trigo, conseguimos construir uma casa melhor, com madeiras novas, e comprar roupas e calçados para os filhos”.

Ficamos em silêncio.

O episódio é um assunto doloroso para o casal, então comento sobre o tempo que já havia escurecido e estava com semblante que viria chuva.

“Sou pobre e sempre fui honesto. Tenho pouco, mas tudo que tenho comprei com muito trabalho. Você pode ir lá na delegacia e procurar na lei alguma coisa minha, não vai achar nada”.

Curiosa, pergunto o que o aposentado faz no dia a dia e Rosa se antecipa: “Vish, esse aí só sabe plantar. Não pode ver um terreno de varde que ele vai carpir”.

Atualmente ele cuida de 4 terrenos nas redondezas do bairro Palmital, em Chapecó -SC. Planta feijão, mandioca, pipoca e milho. Odeia futebol. Política, prefere nem ouvir falar:

“Ganha o Pedro, ganha o Paulo, tenho que continuar trabalhando”.

Não fuma e nunca experimentou um gole de cachaça.

“Ela tem que se ajoelhar e agradecer todos os dias por ter me encontrado. Não tenho vício nenhum. Só sei trabalhar”

Com um sorriso semicerrado, Rosa rebate.

“A menina quer saber das balsas”.

O casal não é alfabetizado. Rosa pouco lê e escreve. Com a tremedeira na mão direita, João Batista já não assina o próprio nome. Ele não sabe ler, mas quando já era adulto e casado frequentou a escola algumas vezes. Faltou uma página para ele terminar de ler um livro.

“Um livro de figuras”, corrige a esposa.

A primeira palavra que leu foi sapato. O livro tinha figuras de objetos e ele tinha de “adivinhar”. Tinha um colega de João que adivinhava:

“Tinha a figura de um bolo, mas a palavra era comida, daí a profe perguntava:

Carlo, que palavra é essa?

BOLO!”

Rindo a esposa fala: “Eram tudo meio bobo”

“Eu não sei nada, graça a Deus. E olha, todas as vezes que precisei, nunca ouvi um não”. Disse o aposentado.

Sentado no sofá da sala e com a cuia na mão ele desabafa:

“Não vou à igreja. Ela (Rosa) reza por mim”. O assunto gera outra discussão.

“Eu não sei rezar. Ela vai e reza por mim”

“Pois não rezo. Se você não abusasse das minhas reza eu até rezava, mas você é folgado” João adora deixá-la brava.

“Pra mim ela é a mulher mais bonita do mundo. Sempre foi e continua linda”.

Os olhos azuis dele encontram os negros dela. A pele cor de cuia dela, ganha um rosado na bochecha. Ela dá um tapa no ombro dele e diz:

“Para de ser bobo. Não é isso que ela quer saber”.

Voltamos ao passado.

João e Rosa juntaram as escovas de dente em 1953.

“Pra mim, casamento é destino”, desabafa o noivo.

A juventude do casal foi baseada em trabalho. Ocasionalmente surgiam bailes na comunidade. Eram iluminados com lampião ao som de viola à beira do Uruguai. Em 1978 o casal se mudou para Chapecó e deixaram o rio.

Quando o casal pisou na Capital do Oeste, compraram com as suas economias a casa em que vivem até hoje. João precisava trabalhar para manter o lar. Como não teve estudo, aos 47 anos conseguiu emprego na prefeitura como gari.

Varria as ruas do centro da cidade. Por sete anos seguiu na profissão. No início, confessou que tinha vergonha do trabalho, mas com o tempo entendeu a importância de sua profissão.

“Todo mundo sempre me respeitava na rua, mas eu brigava com a piazada, eles falavam: ‘você é o lixeiro’. Daí eu dizia que o nome do meu trabalho é limpeza pública”.

Pediu demissão para cuidar da saúde, mas ficou menos de um ano em casa e começou a trabalhar como jardineiro no Hospital Regional do Oeste. Lá trabalhou um ano e meio e foi mandado embora.

Dias depois voltou para Prefeitura, desta vez era o responsável pela praça Coronel Bertaso, a principal da cidade.

Dentre as histórias ele lembra dos casais que marcavam de se encontrar no banheiro da praça.

“Me davam trabalho. Os banheiros eram um nojo, o pessoal não cuidava. Uma vez me chamaram de relaxado. Outra vez brigaram comigo porque eu tava no banheiro das mulheres, mas eu cuidava dos dois ué, tinha que entrar”.

Ali se foram os últimos nove anos antes da aposentadoria.

Rosa trabalhou em casa. Cuidava dos filhos, do marido e dos afazeres domésticos. Hoje recebe benefício do INSS. A família Batista criou os filhos na roça, comendo o que a terra dava e vestindo o que a mãe costurava. Os tempos foram de pobreza, todos conseguiram estudar até a quarta série. Foram alfabetizados.

Dividiam uma casinha pequena de madeira com três quartos. As dificuldades que encararam ao longo da vida humilde não trazem tristeza ao casal. Lembram dos fatos com sorriso no rosto e fazem questão de ressaltar o quanto deram duro na vida.

Conversa vai, conversa vem, perdemos a noção do tempo. O sol deu lugar à lua e a escuridão tomou conta. Era pouco mais de 20h e o casal me convidou para sentar a mesa com eles e tomar um café. Aceito sem pestanejar.

A mesa de madeira contém seis lugares. Pergunto se a família tem lugar definido, e me dizem para ficar à vontade e sentar aonde eu quiser. João senta na ponta, Rosa de um lado e eu de outro.

Em cima da mesa há uma sacola com meia dúzia de pães franceses, café, açúcar, margarina, melado, chimia de abóbora e dois pastéis.

Rosa dá um a João, corta o outro ao meio e divide comigo. Agradeço dou a primeira mordida. O pastel é de bolonhesa.

Logo insistem para eu me servir de café. Coloco duas colheres do nescafé, uma de açúcar e água quente. Dou o primeiro gole e está saboroso. Em seguida João, mesmo com a mão direita tremendo sem parar, se serve sozinho. Pega o café, coloca três colheres de chá mais quatro de açúcar e finaliza com o leite. Quando estica o braço para pegar seu pastel, bate no vidro de café e o derruba. Dali sai um palavrão e uma risada.

Quando me dou conta a dona da casa já está com o seu café pronto e se senta à mesa conosco.O assunto muda de lado e o casal começa me interrogar.

O tema: trabalho e a faculdade. João comenta que há alguns dias o casal estava em Florianópolis na formatura de um dos 40 netos, que formou-se em engenharia.

Dou mais algumas mordidas no pastel e o assunto continua. Quem é minha família?

Em que bairro eu moro? Descubro que sou vizinha de um dos filhos do casal, o Pedrinho.flores

Termino meu pastel e Rosa insiste para eu me servir de pão com chimia de abóbora. Agradeço e continuo degustando o café.

Já se passaram algumas horas desde que iniciamos a conversa. O casal começa a bocejar e me dou conta que estiquei demais a visita daquele dia. Me despeço dos dois com um beijo e um abraço e sou convidada para voltar mais vezes e até levar meus pais para um almoço. Agradeço o convite e garanto que voltarei.

Desço as escadas com um sorriso bobo e me dou conta que conquistei dois novos amigos.

Algumas semanas depois, retorno para uma nova visita. É fim de tarde. O dia esteve com temperaturas acima dos 30°. Repito o caminho: subo as escadas em formato de caracol, encontro a área do mesmo jeito desde a última vez em que estive ali. Me aproximo da porta e bato palma. Ninguém responde. Entro.

O casal está sentado no sofá de sempre. Desta vez a tevê está ligada no jornal das 19h. Eu chamo: ô de casa!

Os dois me olham e sorriem.

Logo se levantem e me abraçam. Primeiro Rosa, depois João.

Desta vez a visita é rápida.

Pergunto como eles estão e a resposta é positiva. Me sento em uma cadeira de madeira ao lado dos dois. Trocamos alguns minutos de conversa. Falamos sobre o tempo. O calor e a falta de chuva dos últimos dias.

Sobre a saúde dos dois e as plantações do casal. João vem plantando mandioca e feijão.

Rosa está empenhada no seu tricô. Me mostra a saia para vassoura que está fazendo, com linha rosa e azul. Por alguns segundos o silêncio toma conta da sala. Me levanto e tomo o rumo da porta. Me despeço com um abraço.

Rosa insiste para eu ficar e tomar um café, mas o cansaço daquele dia de trabalho me faz recusar.

Digo que em breve volto para visitá-los e eles assentem.

Me levam até a porta. Quando me viro em direção da saída, ouço:

“Vai com Deus minha filha”

“Fiquem com ele”.

 

Ilustrações de Alexsandro Gnovatto

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Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

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