fbpx

Rodrigo Campos: diversão e imaginação

Foto: Divulgação

Por Renan Bernardi

Somente ver o anúncio de que Rodrigo Campos faria uma live homenageando os anos 80 do Grupo Fundo de Quintal bastou para aquecer o coração de uma maneira que só um encontro desses proporciona.

Por mais que eu dificilmente conseguisse acompanhar o evento, saber que o que poderia ser uma simples transmissão de um músico homenageando suas referências, torna-se aqui um encontro de vanguardas da história do samba e da música urbana brasileira, sem perder a simplicidade e a proximidade que o formato proporciona, é realmente acalentador.

Te digo o porquê:

Diversão

O Grupo Fundo de Quintal foi criado nos anos 70, durante as rodas de samba promovidas física e ideologicamente em torno do bloco Cacique de Ramos. Através das brincadeiras e improvisações de versos de partido alto, essa turma se torna reconhecida nacionalmente pelo seu trabalho em conjunto com Beth Carvalho, que acabou destacando a inventividade das novas sonoridades que aqueles músicos propunham ao samba.

Bernardo Oliveira afirma que os músicos/inventores do Fundo de Quintal “constituíram-se no final dos anos 70 como os grandes arquitetos, renovadores e experimentadores do samba e da música brasileira”. E isso se prova fácil e metodicamente:

Almir Guineto adaptou o banjo com um braço de cavaquinho para melhor ressoar o instrumento; Sereno trouxe o tantan para substituir o surdo e ocupar o lugar dos graves na percussão; Ubirany criou o repique de mão; Bira Presidente renovou o estilo de tocar pandeiro. E para além de toda experimentação (que aqui não se distancia em nada da música mais popular possível), as canções surgidas através da composição ou interpretação dos artistas que circulavam o Fundo de Quintal e o Cacique de Ramos marcaram a história do samba, com exemplos como “Vou Festejar”, “Coisinha do Pai”, “A Batucada dos Nossos Tantãs” e tantos outros. Além de ter revelado músicos que seguiram carreira solos impactantes na nossa música, como Jorge Aragão, Arlindo Cruz e o próprio Almir Guineto.

E ao relacionar a influência desse grupo bastião da música brasileira na obra de Rodrigo, lembrei também da relação que esse artista faz com a música, as amizades e brincadeiras de infância, conforme apresenta no álbum São Mateus Não É Um Lugar Tão Longe, o primeiro de sua carreira.

Produzido pelo – também músico e pesquisador – Beto Villares, São Mateus […] já pode ser reconhecido como um dos grandes álbuns da história recente da música brasileira. Mesclando as influências de diferentes vertentes do samba com elementos de soul music, jazz e com uma abordagem muito contemporânea na produção, esse registro mostrou as sonoridades vanguardistas que são possíveis ao samba e à inventividade desses artistas.

A linguagem de Beto casou muito com a proposta de experimentação que Rodrigo vinha construindo a partir das inovações que propunha ao samba, aliado nesse trabalho com uma carga nostálgica e melancólica que trazia de sua infância e adolescência no bairro de São Mateus, zona leste de São Paulo.

Buscando fazer um samba que fosse “um pouco mais incisivo, e menos celebrativo”, nesse seu primeiro trabalho Rodrigo canta suas memórias, tristezas e saudades de forma crônica e descritiva, apresentando cenários que trazem seus antigos conhecidos, parentes, amigos, amores, aventuras e brincadeiras.

Creio que, para além de toda dor que o álbum pode trazer por sua concepção, hoje São Mateus […] nos pode fazer refletir sobre a imersão que a obra de Rodrigo Campos propõe através de uma simplicidade narrativa que não deixa de ser muito poética.

E mergulhado nesse universo da infância de Rodrigo, que possibilita entender a sua trajetória afetiva e também um pouco de suas primeiras relações com música através do brincar-de-samba com os amigos, refleti o quanto a diversão, essa matéria-prima também das invenções do Cacique de Ramos, guarda em si uma espécie de estética do amadorismo, que não peca em qualidade (os exemplos aqui são provas), mas que propõe um desdém proposital como solução criativa para suas obras.

E essa recreação-musical-criativa que, surgindo como entretenimento nas comunidades, acaba criando novas metodologias e propondo novas sonoridades para o ritmo proposto, não nos leva somente ao grupo do Cacique de Ramos e a Rodrigo Campos, mas também ao fundo de outros quintais.

O Fundo de Quintal OFC é um grupo de amigos do Maranhão que, realizando vídeo-performances de suas zueras de criança, viralizaram em todo Brasil. Mas, conforme bem pontuou GG Albuquerque: “por trás do meme tem muita coisa a ser descoberta: as variações dos tambores, a performance pós-Teatro Oficina, a genialidade dos planos-sequência. Obra de arte total, mas com uma leveza e desprendimento encantadores.”

E para além dos fundos-de-quintais, também GG Albuquerque nos apresenta um ensaio sobre Bandas de lata e a cultura musical da gambiarra, publicado recentemente no Portal Embrazado, e que aqui também serve como argumento dessa estética do amadorismo.

Para não parecer que faço juízo de valor ao falar em amadorismo, o próprio Rodrigo Campos, ao ser questionado sobre a produção de música independente no Brasil, já usou o mesmo termo para simbolizar como, hoje em dia, o músico tem a possibilidade de estar mais próximo do resultado de sua produção, pois a acompanha em todas as etapas, através de um trabalho análogo ao artesanal.

Imaginação

Assim como a diversão, outro elemento de teor muito aflorado na infância, a imaginação, também pode ser associada com o trabalho de Rodrigo Campos, principalmente em seus segundo e terceiro trabalhos solos: Bahia Fantástica e Conversa Com Toshiro.

Aqui devemos frisar que a infantilidade descrita não está associada à falta de maturidade, mas sim com a criatividade mais solta e despreocupada que temos quando crianças e que, infelizmente, costuma nos ser podada nos processos que nos levam à vida adulta.

Ao lançar o Bahia Fantástica, Rodrigo assume estar abrindo “uma janela para o imaginário”, entendendo a Bahia como uma metáfora muito precisa para as resoluções imaginárias de seu pensamento enquanto artista. Por esse estado ter iniciado o nosso país, Rodrigo entende que também nossa miscigenação, nossos comportamentos culturais e religiosos têm seu berço na Bahia.

Declarado como um disco de realismo fantástico, Bahia Fantástica representa um cenário não decisivo geograficamente, mas como uma metáfora para esse espaço mítico/místico que a Bahia representa na nossa cultura. Assim, Rodrigo ambienta a Bahia não de forma física, mas sim através dos movimentos que seu inconsciente se relaciona com ela.

É interessante notar que, para além de todo imaginário, também aquilo que argumentei ao falar sobre a diversão pode ter aqui uma representação: ao assinar a produção do álbum, todos os parceiros de Rodrigo que ajudaram na construção das sonoridades apresentada são creditados como produtores. Entendo isso como uma forma do artista nos mostrar que, mesmo um trabalho com a dimensão que Bahia Fantástica tem, não deixa de ser um brincar-de-samba entre amigos.

Foto: Divulgação Bahia Fantástica

Colocando novamente a geografia à serviço da inquietação de sua imaginação, Conversas Com Toshiro, o terceiro álbum da carreira solo de Rodrigo Campos, nos transporta dessa vez para a Ásia, representada tanto pelo Japão (“Mar do Japão”, “Abraço de Ozu”), quanto pela China (“Wong Kar Wai”), mas também pelos personagens com nomes culturalmente relacionados com essa região (“Takeshi e Asayo”, “Katsumi”, “Funatsu”, “Chihiro”, “Toshiro Reverso”).

Como se Toshiro e os demais personagens fossem representações do inconsciente, Rodrigo busca através deles dizer e apresentar experiências, opiniões e questões que ele não traria para si, mas que ainda assim propõe através de suas canções.

Dessa forma, a imaginação trabalha como elemento criativo de proposições metafóricas e de significados subjetivos na obra de Rodrigo, nos levando à uma contemplação admirável de sua música e uma identificação que não se justifica de forma óbvia, mas sim através da nossa própria inconsciência, que em algum lugar dentro de nossos pensamentos pode se encontrar com a dele. E esse encontro é maravilhoso!

Depois de Conversas Com Toshiro, Rodrigo Campos lançou diversos trabalhos excelentes, como o Sambas do Absurdo (com Gui Amabis, Juçara Marçal e Nuno Ramos), que já comentei por aqui, explorando outros temas que vão além da diversão e da imaginação (sem deixa-las de lado). Mas isso é assunto para outras reflexões.

Revista Artemísia 2021.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: