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Na pandemia com Swoboda

Por Felipe Maciel-Martínez

Como está sendo a sua pandemia? Pergunta sincera que, já antecipo, nos acompanhará até o final do texto. Calma, não precisa responder agora. Mas suponho que certos afastamentos estiveram presentes. Mais de um ano e mais de 450 mil mortos só aqui no Brasil. Imunização, então? Vacinação iniciada, mas sem expectativas de conclusão. No meio desse cenário, como estamos tendo contato com a música que surge nesse momento de mudanças turbulentas? E para o artista? Como pensar a vida daqueles que trabalham dependendo diretamente das, agora tão temidas, aglomerações?

A necessidade do isolamento social, para conter o vírus que não cessa em ceifar vidas dos nossos, atingiu em cheio aqueles que viviam trabalhando na cultura. E nesse compasso confundem-se até agora incertezas militantes e paranóias precavidas. Uma coisa é certa: tudo mudou. Mais tempo fechado em casa, menos tempo na rua e mais tempo na rede. É nessa imensa rede mundial que peixe grande acaba carneando cardume disperso. Tempo de se reorganizar! Foi assim que eu conheci a compositora Renata Swoboda e fui seguir a maré de seu projeto pandêmico.

Num fim de tarde de sol no Itacorubi, fui conhecê-la pessoalmente. Local aberto, com as distâncias prescritivas devidamente tomadas.

—  Aceita um chope?

— Pode ser.

Antes que conseguisse processar a frase escrita no carro que havia recém estacionado em nossa frente, que continha a bandeira do Brasil junto daquele lema do divino acima de todos adesivado, Swoboda conta seu plano: gravar o vídeo de Alto Astral. Dei um gole daqueles — de quem tirou a máscara olhando para os lados antes de quebrar o jejum social —  enquanto conhecia mais a fundo o trabalho de sua gravação mais recente; Pandemusic (Live), lançado em fevereiro deste ano.

O lançamento surge de uma compilação de dez faixas que foram apresentadas em quatro transmissões ao vivo aprovadas pelo edital #SCulturaemSuaCasa. Com o toque técnico de Rafael Pfleger na produção de áudio, o disco reúne uma parte de todo o repertório performado por Renata nos 170 minutos que totalizam as transmissões disponibilizadas em sua rede de vídeo. Um fato curioso dessas quatro performances ao vivo, que tiveram suas imagens captadas por Thiago Pinho, é que uma delas teve seu conteúdo perdido ao ser armazenado na plataforma, tendo apenas o seu áudio registrado. Fato que torna o registro dos 44 minutos selecionados para o álbum o único acesso à algumas dessas performances.

Nas quatro sessões transmitidas de seu aquário, todas as músicas foram adaptadas para serem tocadas apenas por Swoboda. Ela, o instrumento em suas mãos e seu computador: para muitos artistas a impossibilidade de reunir uma banda nessas atuais situações foi encaminhado para essas novas saídas. O que propõe a autora é o formato que ela chama de “disco aberto”, algo que seria uma espécie de convite à participação de outros artistas.

— E aí? O que achou da música?

— Gostei do sangue vegano com engano cigano. Vozeirão da pesada rasgando em ritmo que vai arrastando uma cadência que roça pela espinha…

— Por acaso tens cartas de Tarot?

Quando percebi, já estava conhecendo o local onde algumas composições inéditas do disco foram criadas. O local por si só já colocava o ambiente de retrospectiva, com fotos de diversas épocas da carreira artística dela, recortes de jornais, e outros recuerdos com aquele toque de compilação que só a base de fãs familiar sabe montar em mosaico estrategicamente na casa.

Renata conta que acabou mergulhando fundo em todas as angústias que vieram com a covid-19; lutos e surtos, confusões e confissões, perdas e encontros, o estilo nu e cru que corre o disco seria um convite ao turbilhão de emoções que o isolamento social trouxe.

O tal Alto Astral, percebi ao ouvi-la presencialmente, com a voz e os acordes da cantautora ecoando pela casa, soa mais baixo que seu nome de batismo. A faixa de abertura convoca o ouvinte ao âmago dos lamentos produtivos do artista que busca voz na nudez do isolado. Tem grito, garganteios dissimulantes, surtos da gangorra dos novos tempos. A instabilidade já cotidiana se debatendo naquela lembrança do disse da noite vivida, e do fim dela ao nascer do sol, agora visto em grades invisíveis. Numa jogada pentatônica, o som das astralidades, que não dão conta de explicar o agora, vai deixando um rastro de questionamentos.

— E o vídeo?

— Gravamos amanhã.

Se você chegou até aqui, e eu ainda vivo para escrever a ti e aos demais, acho que podemos sair do raso e molhar a cabeça nas dez faixas que agora escrevo. Álcool gel em mãos e máscara na cara, aproveitei a submersão na pandemúsica gravada para fazer uma kinoreportagem do disco, enquanto organizava as ideias para filmar com a câmera na mão. 

Na segunda faixa, o lema jogado como mantra em Alguma coisa acontece vai te colocando nessa dúvida da produtividade. Tal música surge do resultado de uma colaboração à três, executada já no isolamento. Renata diz que teve a ideia e gravou a música no banheiro, com o músico carioca Pedro Henrique Santos conseguiu uma batida para consolidar o ritmo, daí enviou para a MC Versa, que foi lá e escreveu a rima que completou o trabalho. 

Já era tarde e a lua tava graúda como peixe-boi. 

— Qual é o teu lance de escrever em inglês?

— É que eu fui aprender a tocar quando era nova e morava por lá.

Midnight sun é um espaço etéreo para a ficção da meia-noite. Noite morna de lua forte, lembranças densas em rouquidão nostálgica. Aí fui notando que a casa era cheia de espaços e cantos que recuperavam essa conexão com a adolescência na gringolândia. Na parte externa, enquanto filmávamos os barcos de papel afundando na piscina, fui descobrir que estávamos no local onde a família de Swoboda se instalou em 1995 voltando de Los Angeles. E inclusive You fuck like the devil, escrita quando a autora tinha 17 anos, e What’s the secret surgem como retornos às maneira que ela compunha no passado, atualizadas na rememoração covídica. 

Ilhada ao ser escutada nesses tempos de isolamento, longe das praias cheias de sol fervente, faz o calor de líquidos amores evaporarem. Como se a voz robótica experimentada nessa versão quisesse explodir a distância que os encontros eletrônicos nos impõe.  

No meio dessas conversas fui descobrir que a voz que compõem o dueto de abertura de De quando é da talentosíssima Julia Muniz, que era sua veterana das épocas do curso de música na UDESC. Lembranças vão se sobrepondo em camadas de vozes, sopros de gaita, suspiros de outrem, que voltam em novas nuances partindo de memórias ainda bem vivas e sonoramente instigantes. Separações enigmáticas na praia da Armação, do corpo apertado ao aperto do corpo ausente. Soube que a composição havia ganhado um vídeo graças a uma performance vencedora no Luau MTV, que ocorreu por aqui há alguns vários anos atrás. 

A artista, que já tinha completado um ano longe dos palcos, dizia sentir-se “como os músicos do Titanic” e, pensando em um naufrágio iminente, comentou algo que ficou na minha cabeça:

É desesperador ter que lidar com tantas mortes ao mesmo tempo! Fiquei tão imersa nessa onda de mortes que estava me afogando. Vi pessoas próximas, amigos e familiares morrendo, tudo mudando em meio ao isolamento, que senti que precisava fazer algo. Comecei a pensar na minha própria morte como uma possibilidade real e quis gravar isso. Estamos enfrentando a morte do disco como era e tentando buscar novas formas…

Na hora lembro de ter entrado nesse clima de ”fazer enquanto dá” e comecei a filmar com outros olhos. E depois disso comecei observar essa impulsividade toda vez que escutava Muito mais longe A dinâmica que a sétima música vai adquirindo, até se transformar em um ritmo hipnótico embalado por tambores e sintetizadores, vai empurrando a voz e a guitarra de Renata para um rasgo interior. “Foi a única música que eu compus para mim mesma”, acrescenta a cantautora.

Os locais e bares que abrigavam os músicos de nossas gerações culturais, quando surgiam nas conversas, logo seguiam de alguma constatação de que já haviam fechado ou estavam passando por grandes dificuldades. Os artistas da noite nas mãos de decretos sem o devido respaldo. Surgiam saudades das cenas que aglutinavam artistas de diferentes áreas, coisas que se foram com a pandemia. Continuei perguntando, agora com as tarefas audiovisuais completas.

Dama de Satã surgiu de uma incursão de Renata no teatro catarinense. O tema surgiu da trilha feita em 2007 para a montagem da peça setentista Vinegar Tom, sob direção de Maria Brígida de Miranda. Primeira vez que o trabalho da britânica Caryl Churchill ganhava uma tradução. Por aqui, o espetáculo foi apresentado por dois anos e a música era sempre requisitada no repertório das apresentações de Swoboda. No álbum, a faixa contou com a colaboração de Billy Shears e Córtex compondo uma atmosfera que desloca a inquisição medieval para os delírios das noites dançantes nas boîtes da Ilha.

A faixa que fecha o álbum, Bora Batucar, é um ótimo exemplo para tentar explicar a proposta do disco aberto. A composição que encerra o trabalho é um convite à participação no próprio arranjo; chama o ouvinte para batucar e deixa a estrutura sem nenhum tipo de batuque, como se Swoboda tivesse convidando a todos para batucarem junto com ela antes do fim do mundo, dando total liberdade musical para isso (inclusive pedindo para que o chão trema). Algum tempo depois fui descobrir que a tradução de “swoboda”, do polonês para o nosso idioma falado, é liberdade.

Volto agora à pergunta de entrada: como está sendo a sua pandemia? Por aqui, toda a vez que tento compreender como aqueles que trabalham com cultura tentam sobreviver a esse impasse viral, vou percebendo que muitas histórias são perdidas dentro das novas restrições sociais que surgiram. Pensar a morte do artista isolado e o limbo do seu trabalho dentro desse turbilhão de informações nas redes sempre acaba gerando um incômodo. Nisso, fui tentando registrar cada dado possível sobre o trabalho por trás das telas. Aceitei o convite e fui batucar.

Revista Artemísia 2021.

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