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Monsueto Menezes: quando a influência é maior que a referência

Por Renan Bernardi

Nascido no bairro da Gávea, no Rio de Janeiro, Monsueto Menezes, também conhecido como Baita Negão ou Comandante foi reconhecido entre as décadas de 50 e 70 principalmente pelo seu célebre trabalho musical, mas além disso, também foi ator e até mesmo pintor.

Interessado desde muito jovem pelas batucadas que aconteciam no Morro do Pinto, onde foi criado, aos 17 anos já era baterista profissional de escola de samba, mesmo sem tomar partido por nenhuma delas, e sim, cultivando uma amizade e uma admiração por todas.

Além da habilidade tremenda com as percussões, logo se revelou um exímio compositor e letrista, tendo feito seu primeiro samba, “A Fonte Secou”, circular pelas vozes dos cantores das escolas do Rio de Janeiro, tornando-se conhecido por todos os subúrbios da cidade muito antes da sua gravação, que só viria acontecer em 1954, pela voz de Raul Moreno.

A sua aptidão inquestionável com o instrumento, somada com o interesse crescente que as elites cariocas passaram a ter pela música desenvolvidas nos morros, logo o colocou em destaque nesse nicho, tornando-se em 1950 o baterista da Orquestra do Maestro Copinha.

Essa introdução ao cenário elitizado permitiu que as suas composições fossem apresentadas aos cantores e cantoras de rádio da época, tendo então, no ano seguinte (1951) o seu primeiro samba gravado, “Me Deixa em Paz”, na voz de Linda Baptista.

A partir desse sucesso, Monsueto virou um nome estabelecido na cena cultural carioca, emplacando diversas composições nos carnavais desta primeira metade da década de 50.

Além das já citadas “Me Deixe em Paz”, em 51, e “A Fonte Secou” em 54, no ano de 1955, após o suicídio do popular presidente Getúlio Vargas, onde esperava-se um carnaval deprimido e lutuoso, o samba “Mora na Filosofia” de Monsueto, interpretado pela voz da cantora Marlene foi aclamado e repetido em abertos pulmões pelas quadras das escolas da cidade, se tornando um grande sucesso daquele carnaval, que de deprimido não teve nada.

Durante sua vida, Monsueto chegou a participar de 14 filmes, além de diversas participações em programas de TV. Essa introdução dos artistas populares ao cinema, da qual Monsueto faz parte, foi um movimento que começou a se tornar comum na segunda metade da década de 50, assim como aconteceu com Zé Keti e os filmes de Nelson Pereira dos Santos.

Um destaque da filmografia do Comandante é o filme Briga, Mulher e Samba, dirigido por Sanin Cherques e lançado em 1961.  Nele, o artista introduziu o seu samba “Ziriguidum” à trilha sonora do filme, onde ele interpreta ao lado da, na época, ascendente Elza Soares, nesta belíssima cena:

Em 1962, Monsueto lança seu primeiro LP como interprete, que também é seu primeiro registro autoral. Mora Na Filosofia dos Sambas de Monsueto é um álbum seminal para sua carreira e também para toda música brasileira. 

Deixando as orquestrações e arranjos de escola europeia de lado, o álbum busca trazer uma versão reduzida de uma escola de samba para dentro do estúdio, mantendo sua essência de percussões, aqui com 13 ritmistas, cantos de pastorinhas e o próprio Monsueto assumindo o papel de puxador.

Além das canções já conhecidas por outros interpretes e aqui repaginadas na versão do autor, Mora Na Filosofia dos Sambas de Monsueto traz faixas inéditas, como uma introdução instrumental de percussões (“Bateria E Solo de Percussão”) e a ótima “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo”.

Em 1964, Monsueto lança seu segundo LP, Bigorrilho. Contando com orquestra e coro de vozes, o trabalho tem uma roupagem mais convencional, mas não deixa de se destacar, principalmente por “Pula Baú”, canção de Jorge Ben Jor que é reinterpretada no álbum.

No ano seguinte, Maria Bethânia acabava de assumir o popular Show Opinião, substituindo a grandiosa Nara Leão e, já neste seu primeiro repertório, incluiu “Mora Na Filosofia” de Monsueto, que na sequência acabou também fazendo parte de seu álbum de estreia.

Então, o interesse pela obra de Monsueto foi continuado pela nova geração de artistas que a música popular brasileira vinha providenciando. Prova disso é a canção “Me Deixe Em Paz”, que foi revisitada por Milton Nascimento, em parceria com Alaíde Costa num dos álbuns mais importantes da música brasileira: o Clube da Esquina, de 1972; Além, é claro, do arranjo extraordinário que Jards Macalé fez para “Mora Na Filosofia” na interpretação de Caetano Veloso, no também seminal álbum Transa, do mesmo ano.

Infelizmente e precocemente, Monsueto falece em 1973. Mas as referências ao seu trabalho continuam presentes nas interpretações de artistas em atividade pelo nosso país.

No mesmo ano, Martinho da Vila canta um medley de suas canções em “Tributo a Monsueto / Casa um da Vila” do álbum Origens (Pelo Telefone).

Também em 1973, o experimental Araçá Azul, de Caetano Veloso, também conta com uma canção de Monsueto. “Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo” é aqui adicionada à um arranjo desconcertante de Caetano e de Lanny Gordin, resultando na faixa “De Cara / Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo”.

No ano seguinte, o grupo vocal MPB4 também homenageou o Comandante com um pout-pourri de algumas de suas canções para o álbum Antologia do Samba, contando ainda com a participação do Quarteto em Cy.

Monsueto Menezes

Sendo muito reproduzido até a década de 70, o legado de Monsueto foi se apagando com o passar dos anos, sem ser mantido o devido reconhecimento de toda influência que esse gigante músico trouxe para nossa cultura popular.

Monsueto fazia um samba diferenciado para os padrões da arte de seu tempo, muito mais percussivo e rítmico, muitas vezes sem a presença de orquestrações que eram comuns nas gravações da época.

Mesmo tendo uma relação direta com o samba de Partido Alto, a música de Monsueto tem características únicas de detalhes e complexidades rítmicas que não são presentes em seus parceiros de geração. Enquanto estes focavam na percussão dos violões e cavaquinhos aliados aos seus princípios harmônicos e, logicamente, sempre acompanhados de precisas percussões, o trabalho do Comandante acontece sempre em volta das batidas, tendo os outros elementos harmônicos e melódicos (mesmo o canto), como complementares à música construída pelas baterias e percussões. 

Os seus caminhos, mesmos sendo valorizados pelos grandes artistas já citados, tem uma expressão de influência (direta ou indireta) muito maior no samba que foi desenvolvido no Rio de Janeiro no final dos anos 70, o conhecido samba (ou pagode) de Cacique de Ramos, bloco carnavalesco que inventou o estilo a partir da introdução de novos elementos, instrumentos e sonoridades aos sambas.

A partir dos anos 80, as percussões polirrítmicas, inclusive digitas, ganham uma maior proporção na música brasileira, e não é injusto acreditar que diversos caminhos que se seguiram a partir de então na música percussiva do Brasil tenham sido influenciados pelo que foi desenvolvido por Monsueto, resultando hoje em ritmos populares como o Pagodão Baiano e na sua revisitação pelo Baiana System.

Além de ter revolucionado à música interpretada nas escolas de samba, Monsueto atravessa a MPB setentista como uma referência e até hoje, mesmo não tendo a valorização cabível, é uma influência para os ritmos construídos no Brasil.

Nos cabe agora, recuperarmos esse reconhecimento.

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