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Metanóia e caos urbano

Capa: Gustavo Richter

Por Renan Bernardi

Metanóia é a nóia sobre a nóia?

A jovem banda porto-alegrense que usa esse termo como alcunha diz que sim, “possivelmente”. Mas também explica que o nome surgiu na origem das palavras “metá” (do grego “além”) e “nous” (“pensamento”). Sendo então uma forma de se posicionar com uma renovação do intelecto para além das formalidades sociais e temporais, se usando da música e da poesia como fator “embriagador” que possibilita essa visão diferenciada.

Fundada em 2019 por Gustavo Giordani Richter, Laryssa Fontes Dutra, Matheus Sonntag Wiebbelling e Renan Cambraia, a Metanóia traz para o seu som influências da música psicodélica brasileira e internacional, clássica e contemporânea, somando isso a arranjos pensados em ambientações, utilizando de sopros e sintetizadores para alcançar esse resultado.

Lançado em 2020, o primeiro single da banda, chamado “Girassóis”, já traz uma demonstração da união desses objetivos poéticos-estéticos-sonoros.

A música começa dançante, com uma pegada cumbia, mas logo apresenta mudanças no andamento, indo da polirritmia até a calmaria ambiente.

Duas vozes dão a tônica poética da balada que reflete sobre a transição da juventude que, desacostumada com as tragédias que não se ensinam, parte para a observação do seu redor buscando entendê-las, se livrando dessa inocência – natural e imposta – da infância e adolescência. E assim, descobre que nem tudo são trevas. Podendo também haver flores. Girassóis.

E agora em 2021, a banda presenteia com mais uma canção o seu público: “Na Cidade”, single gravado no Estúdio Sonar e lançado pelo selo Pedra Redonda.

Aqui, o mesmo jovem olhar observador se volta agora para o urbano, não apenas nos aspectos geográficos ou arquitetônicos, mas também para as pessoas que povoam o cenário e muitas vezes deixam de prestar atenção a ele.

Usando esse olho poético, o eu-lírico passeia sua visão calma por esse caos e despreocupadamente perde-se em seus raciocínios, enquanto observa as coisas do chão ao céu lunar, deixando elas entrarem na canção munidas de suas reflexões pessoais.

O som dançante é bem costurado por diversos elementos que soam claramente, sem parecerem intrusivos ou chamativos, mas sim como camadas de uma unidade sonora bem definida em seus objetivos. Aos poucos, a música que até então estava envolta na canção, dissipa-se a letra e parece tomar um rumo próprio, mais livre de estrutura e nem por isso desorganizado, mas como uma ambiência quase cinematográfica, que parece sair de uma festa, tomar a rua e desaguar na lagoa das guitarras de surf-music, para logo, elas mesmas pegarem a música para si em um solo distorcido, que finaliza essa experiência.

Foto: Gustavo Richter

Essa sonoridade neo-psicodélica unida aos arranjos de sopro me remete também ao som que vem se desenvolvido por uma recente geração da música do eixo Rio-São Paulo, com nomes como Filarmônica de Pasárgada, Trupe Chá de Boldo e até a novíssima banda Tietê, que também possui apenas dois singles apresentados e que me parecem extremamente conectados com as antenas da Metanóia.

Pode parecer apenas especulação, mas observo aqui um possível recorte geracional que traz uma juventude ligada em Lira Paulistana/Vanguarda Paulista e Tom Zé, mas se identificando também com expoentes gringos recentes, indo de Arcade Fire, Vampire Weekend até King Krule e BADBADNOTGOOD.

Talvez esses nomes nem façam sentido para os nossos artistas, sendo assim mais uma forma de como eu imagino a construção de influências possíveis a partir do que observo dessas sonoridades. Fato é que temos interessantíssimas propostas sonoras nascendo em nosso país, dialogando com nosso histórico e também com a contemporaneidade da música universal – e não devendo em nada para ela.

A Metanóia está aí para provar isso, mostrando também que nossa época não possui uniformidade sonora, e sim – e cada vez mais – nichos-abertos, que partem de seus núcleos e colhem frutos de onde acharem interessante dentro do mar infinito de possibilidades que a música apresenta.

Ouça na sua plataforma favorita: https://tratore.ffm.to/nacidade

Revista Artemísia 2021.

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