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Maria Bethânia (1971) – Um abrigo gramatical para tempos de governo totalitário

Capa do álbum ‘Caetano Veloso’, lançado em 1971

Por Ícaro Colella

Não é de hoje que as artes, e principalmente a música, são remédios combativos aos movimentos fascistas em ascensão ou em escalada. Em alguns momentos da história política brasileira um aspecto pôde ser observado: nos governos mais autoritários ou em momentos de crise, os jovens tendem a desacreditar em seu futuro no país e saem para buscá-lo em outros lugares. Isso aconteceu na ditadura militar, no governo Collor e, de certa forma, se repete em 2020, com uma pandemia avassaladora acompanhada de uma governança questionável. 

Precisamos retroceder quase cinco décadas. O ano era 1971, e Caetano Veloso, junto a Gilberto Gil, estava exilado em Londres. A ditadura militar convidou duas personalidades revolucionárias da época a sair do Brasil. O que ao meu ver, resulta em uma espécie de êxodo criativo e cultural desta nação. Exilado e com o dom da escrita, Caetano lançou um disco intitulado ‘Caetano Veloso’. 

O disco é composto por sete faixas melancólicas, sendo seis escritas em inglês e a última em português: 1- A little More Blues; 2- London London; 3- Maria Bethânia; 4- If you Hold a Stone; 5- Shoot me Dead; 6- In the Hot Sun of a Christmas Day e 7- Asa Branca. As canções que tratam de saudade, dos amigos e principalmente da falta de casa, constroem uma narrativa lógica que remete a triste trajetória de estar exilado. 

A capa do disco também complementa essa ideia. já que é composta pela imagem posada do cantor, que esboça, propositalmente, uma feição séria e questionadora. Vale destacar os aspectos sígnicos desta capa, que apresentam o artista claramente descontente com a situação política da década, com a barba por fazer, olheiras e cheio de frio em uma cidade climaticamente diferente da sua terra natal no nordeste.

Esta foto menciona um cansaço e um aspecto de velhice, que diverge da jovialidade de Caetano em 71, afinal ele tinha apenas 29 anos. Nesta época, o Brasil passava por um momento crítico da ditadura militar com o governo Médici, três anos depois do AI-5, ato que respaldou a linha autoritária e institucionalizou a censura de conteúdos culturais.

Apesar de trazer outras canções sensacionais, decido aqui tratar de uma em específico. Por escolha bem parcial. Esta é a terceira faixa do álbum e se chama ‘Maria Bethânia’ – dedicada a irmã mais nova do cantor, também intérprete. A canção foi escrita em inglês assim como a maior parte do disco e possui uma sacada gramatical. O better (melhor), musicalmente se transforma no nome da irmã em uma conjugação perfeita.

“Maria Bethânia, please send me a letter
I wish to know things are getting better
Better, better, beta, beta, Bethânia”

“Maria Bethânia, por favor me escreva uma carta
Eu gostaria de saber que as coisas estão melhorando
Melhorando, Melhorando, beta, Beta, Bethânia”

Sugiro que para continuar o texto, você (leitor), caso ainda não tenha a ouvido, o faça agora!

Ao pedir notícias da situação do Brasil, quase quanto uma súplica, Veloso deixou uma canção atemporal no ar, que faz qualquer falante da língua portuguesa ficar nostálgico. Ao ofertar um oásis harmônico da nossa fala no meio de uma letra em inglês, a sonoridade das palavras pronunciadas em um tom e sotaque diferente faz arrepiar. Ao fim da canção, ouvida no século XXI, um questionamento: as coisas melhoraram desde 71?

Sem acesso, nem registro da resposta a esta música, ficamos em um limbo ao responder. Caetano, gostaria realmente de dizer que as coisas estão melhorando. Como dizes na música, vendemos nossa alma ao diabo. Foi em 2018, quando em nosso processo democrático eleitoral, em maioria escolhemos Bolsonaro como presidente, que trouxe consigo uma ideia de militarização de um estado cada vez mais totalitário. É 2020, e fazem anos que as coisas retrocedem. 

A canção que carrega um romantismo típico do cantor indica na letra um pensamento. “Todo mundo sabe que nossas cidades foram construídas para serem destruídas”. Aqui, cidades aparecem enquanto ideias compartilhadas por um grupo. No sentido sistemático, essa cíclica história se repetirá, mas agora já sabemos como tudo acaba. Voltamos para casa e transformamos a arte em um abrigo sentimental. Tendo esse manancial como repertório, se pode afogar as mágoas nas canções e ainda refletir o que queremos politicamente para esta nação. 

“Quando tudo estiver melhorando, uma carta será enviada. Mas por enquanto…não estão”. 

Você também pode ouvir o álbum no Spotify:

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

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