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Homônimo álbum de estreia do supergrupo OBSP projeta a música universal através da simplicidade

Por Renan Bernardi

Fotografias: Vinícius Angeli

Apesar de eu ter declarado na minha última matéria um fascínio pelo sempre moderno som de São Paulo, algo que me encanta tão profundamente quanto essa constante novidade antropofágica, é quando o folclore consegue ser revisitado sem cara de museu, muito menos de vitrine, mas sim de galeria, onde a cada mostra é novo, digno de admiração e de análise.

Renato Borghetti, por exemplo, em um mini-documentário sobre a sua carreira, declara que é apenas o folclore gaúcho que pauta a sua música, que é dele que toda sua inventividade surge.

Mas o curioso é que, independentemente de ser pautada no folclore gaúcho, a música de Borghetti atinge as possibilidades e limites da própria cultura que, ao abrange-la da forma mais aberta possível, acaba fundindo-se despercebidamente com outras culturas semelhantes e até de relações aparentemente desconexas, que através da música, acabam criando similaridades. É o que acontece com a música universal de Hermeto Pascoal, Sivuca, Dominguinhos e, entre tantos outros, a de Renato Borghetti.

O filho do acordeonista, Pedro Borghetti, já surge no cenário musical consciente tanto da universalidade do folclore onde ele foi criado, como também da modernidade que também existe dentro de um centro-fora-do-eixo, como é Porto Alegre/RS.

E o trabalho que mostra mais claramente essa noção, que ele compartilha com toda uma geração de músicos deste mesmo cenário, é o que o quarteto Ortácio, Borghetti, Salazar e Poty (OBSP) acaba de lançar como primeiro e homônimo álbum.

Desde 2018 tocando juntos, esses quatro compositores e multi-instrumentistas formam uma espécie de supergrupo de músicos com carreiras solos muito bem representadas por seus trabalhos anteriores:

João Ortácio já teve dois lançamentos com a banda Renascentes; Pedro Borghetti além de já ter acompanhado o pai tocando bumbo leguero, também lançou seu primeiro trabalho solo em 2019, o belíssimo Linhas de Tempo; João Salazar constrói sua carreia solo desde o EP Entrópico, acompanhado ainda do álbum Lugar Afora; Já Poty é o nome que assina o meu trabalho favorito dessa galera, o maravilhoso álbum Percepção, lançado em 2018.

Juntos, eles acabam realizando uma música repleta de novidades e pautada na simplicidade e no uso de instrumentos acústicos como violões, percussões diversas, contrabaixo e até mesmo o latiníssimo charango.

Usando-se muito do recurso do coral de vozes, uma tradição que também é universal, o primeiro trabalho da OBSP traz referência de formato com Crosby, Stills, Nash e Young, mas sua sonoridade também nos lembra das composições de Joni Mitchell, além de principalmente ser pautada na estrutura de arranjos de artistas latinos, como Lô Borges, León Giecco, Mercedes Sosa, Perotá Chingó, Las Áñez, Aca Seca Trio e Eduardo Mateo.

Além de todas essas possíveis influências, o próprio cenário da nova música do Rio Grande do Sul, do qual os próprios membros da OBSP fazerem parte, também conversa com a proposta do grupo.

Nessa cena, encontramos nomes interessantíssimos, como a nova geração da família Ramil em seus projetos solos (Ian, Gutcha e Thiago), Paola Krist, Dionísio Souza, solo e junto ao grupo KIAI, Bri, Jordana Henriques, As Tubas, Três Marias, Neuro Júnior, Kula Jazz e entre outros que, ou abdicam das vertentes do folclore gaúcho para seguirem seus próprios caminhos, ou fazem dele um norte para as infinitas possibilidades do mesmo, já muito bem apresentadas na história da música rio-grandense.

Lançado pelo coletivo cultural porto-alegrense Pedra Redonda, que trabalha como estúdio e também como selo, OBSP traz 14 composições criadas coletivamente pelo grupo.

Durante as estruturas sonoras produzidas, gravadas, mixadas e masterizadas pelo grande produtor Guilherme Ceron, ouvimos ruídos da casa e da natureza onde o álbum foi gravado, em Barra do Ribeiro/RS.

“Navegador” dá início, apresenta a estética e explica bem que esse trabalho, mesmo acústico, ainda soa como pertencente de seu tempo, sem forçar uma nostalgia, mas também sem ignorá-la. E a letra que acompanha essa apresentação, já mostra alguns pontos centrais daquilo que o álbum abordará: metáforas, questões, existência e resistência.

“Curupira, Caipora, Chico Mendes” é uma bela homenagem ao ativista, sua luta, sua história e sua exemplar relação com as pessoas, a natureza e tudo que envolvem esses dois temas que cada vez mais se distanciam. Todo esse legado é entoado quase que como uma oração no lindíssimo refrão que a canção traz para valorizar a música para além de suas referências.

O interior e o profundo se manifestam com grandiosidade trágica na mensagem de “Tornado”, o primeiro single do álbum, lançado com um clipe ao vivo de imagens registradas durante as gravações do álbum:

Um ar meio Tom Waits que se quebra em uma harmonia bem mais sensível é a construção que se repete em “Retina”, que após isso toma caminhos surpreendentes em seu arranjo. Uma ótima faixa.

“Passageira” é uma canção de construção mais popular que, mesmo rica em seus elementos (uma ótima instrumentalização vocal), é um dos poucos pontos fracos do álbum, dispersando a atenção que o álbum vinha tendo, mesmo fazendo seu papel dentro da obra.

Comandada pela voz de Pedro Borghetti, “Passeio” foi o segundo single do álbum (também acompanhado de um clipe de cenas das gravações), onde temos uma cama muito bem feita pelos violões e o – bem presente – baixo para a voz deitar mais do que confortável acompanhada das ambientações percussivas – com requintes de  Naná Vasconcellos.

A balada “Sol de Verão”, cantada por Poty, é a canção mais minimalista do álbum, mas nem por isso ela é intimista, ao contrário: é extrovertida e nos dá a sensação de estar ouvindo na própria roda de amigos onde ela é tocada na gravação.

Um dos pontos mais altos do álbum, “Luz de Led” trabalha com uma polirritmia constante feita tanto pelas percussões como por efeitos de produção e acaba desaguando em um refrão que contrasta com esse início agitado e nos prende a atenção com uma profundidade imensa das frases que, quase como uma poesia concreta musicada por Walter Franco, anuncia tantas possibilidades interpretativas com tão poucas palavras. Uma faixa que eu usaria como sinopse do álbum, e mesmo do próprio grupo.

Com tons de despedida (fora de hora), “Cascas” mostra que mesmo com a universalidade da obra desses quatro, essa música tem um território muito específico onde foi semeada e cultivada.

“Terra redonda!” é a afirmação científica que inicia “Órbita”, faixa que talvez por tanto comentar sobre a nossa atualidade, me soa até apocalíptica. Da forma mais bonita que o apocalipse pode se apresentar, é claro.

As abordagens mais populares do grupo são mais bem apresentadas em “Psicotrópico”, canção brasileiríssima, inteligente e com um humor que, para além do próprio nome que nos remete ao hit Bacurau, me soa muito familiar com o nosso cinema brasileiro. (Uma trilha sonora em busca de um filme?)

Mas a favorita aqui de casa foi “Vermelho Rosa Terra”, onde o charango, a letra e as vozes nos aquecem a mentalidade latino-americana de dor, luta e calor. Uma conscientização profunda e abstrata se apresenta ao decorrer da música que, ao final da mesma, eu sei onde cheguei sem entender completamente os caminhos que me levaram até ali.

“Represa” é a faixa mais despretensiosamente nostálgica do álbum, me fez lembrar das estruturas de canção dos anos 70, tanto na música popular em inglês, como também em Minas Gerais, que antes já serviram de referência para os gaúchos do grupo Almôndegas e, aparentemente – e felizmente – repercutem muito bem até hoje pelo Rio Grande do Sul.

Com chave do ouro, “Parte” finaliza o primeiro álbum da OBSP com os mesmos requintes nostálgicos, mas que aqui tomam rumos de novidade, com cara de fim e de começo, abocanhando o ouvinte com um coro vocal profético e que se despede junto comigo em cada experiência que está sendo ouvir esse álbum.

O homônimo álbum de estreia da OBSP é um registro belíssimo da criatividade, da amizade e das possibilidades que a simplicidade, através da dinâmica musical e pessoal que esses quatro artistas têm, consegue expressar em música.

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