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As forças que se trombam em João Mansur

Foto: Capa do álbum “Trombada”, de João Mansur

Por Renan Bernardi

“O ano passou voando”.

É com essa frase que se inicia Trombada, álbum de estreia da carreira solo de João Mansur. Na sequência, uma série de livre associações parecem montar um cenário do imaginário do artista na faixa “Parapeito Margarina”, mostrando logo de início um pouco do aglomerado de referências, tanto sonoras quanto poéticas, que diversas e diferenciadas passam pela cabeça do compositor ao produzir esse belíssimo trabalho.

Lançado em março de 2021 (esse ano que também passou voando), Trombada me surpreendeu desde a primeira audição por trazer uma carga de contemporaneidade que não força nenhum hype, sem buscar se enquadrar em nenhuma onda do momento e nem se isolar em algo nostálgico, mas condensando experiências que se complementam de forma inusitada, fazendo Djavan e Thundercat entrarem em uma jam descomprometida, mas que não poderia deixar de ser excelente.

Produtor musical e multi-instrumentista refinadíssimo, João Mansur, que também atua no ótimo grupo ‘Akhi Huna, traz em seu álbum solo ideias que se unem através de contrastes que não se contradizem, mas se completam. A faixa “Hahaha” parece sintetizar bem isso ao dizer “quase tudo é minimamente interessante e febril”, mostrando que tanto na poética quanto na construção de arranjos, nada é descartado de imediato para ele, e o resultado desse conceito é muito bem amarrado, sem exageros e falsas pretensões, mas com muita sensibilidade. Nessa mesma canção, vejo isso ser novamente retomado na marcante frase do refrão, onde a doçura e a brutalidade de uma infância de menino em um mundo machista é trazida à tona: “me cuspiram na boca / e eu senti falta da macheza doce do meu pai”.

Assim, a Trombada que dá nome ao disco me parece significar o choque entre forças opostas, onde João não escolhe um lado entre elas, mas se apega justamente ao conflito, ao encontro delas nesse meio.

“Confiança e delírio são irmãos / tipo eu e Bebel” é mais uma frase que me traz essa ideia. Presente na faixa “Jazz Místico” (minha favorita do álbum), ela parece concluir outros pensamentos trazidos na canção, como por exemplo “depois de sábado, uma nova era / tudo lindo / ou só domingo”.

Isso também parece acontecer em “Úú”, que inicia com a afirmação “eu gosto do velho que malha e do jovem que fuma”.

Com um violão quase sempre em destaque, acompanhado de guitarras, baixos, teclados, baterias e percussões, os arranjos ainda contam samples (destaque para “Se Eu Quiser Falar com Deus” (Gilberto Gil) na voz de Elis Regina presente na derradeira “Clareira”), efeitos digitais e inserções teatrais de voz que remetem à Rogério Duprat, formatando o trabalho com um lo-fi refinado que combina muito com todos os contrastes apresentados durante a audição.

Trabalhando entre a despretensão e a excelência, Trombada é um dos meus álbuns favoritos desse 2021, que espero que venha a crescer muito com o passar (voando) dos anos.

 

Revista Artemísia 2021.

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