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3 anos de “Percepção”, de Poty

Por Renan Bernardi

Ao se falar de um álbum musical, é um costume da crítica procurar uma unidade sonora, estética ou conceitual para guiar o raciocínio despejado sobre a obra. O que não é de se estranhar, visto que um conjunto de músicas selecionadas pelo mesmo artista ou um grupo deles, sendo composições próprias ou não, tendem a refletir um gosto pessoal e um emaranhado de referências que ele – ou cada um deles – trazem ao se expressar.

O que não concordo é quando essa busca conceitual serve de parâmetro para defender ou criticar o trabalho, pois isso é cada vez menos (e já é há muito tempo) um item supérfluo comparado com as possibilidades sonoras que uma cabeça (ou várias cabeças) pode realizar a partir das diversas e diversas influências e referências que ela traz. E creio ser ainda mais supérfluo dentro de um histórico como o da música popular brasileira, onde há muitos anos um mesmo artista ou grupo reproduz uma série de gêneros musicais populares, desde Carmen Miranda que cantava marchas, sambas, mambos; Luiz Gonzaga com choros, baiões, forrós; E um exemplo que gosto de pensar como muito definitivo: o álbum Contrastes (1977), de Jards Macalé, um trabalho que ronda a música brasileira com pós-tropicalismo, onde nenhuma faixa se parece com a outra.

Mas esse nem é o caso do álbum que trago aqui para a discussão, que trata-se de Percepção (2018), primeiro “disco cheio” da carreira do jaguarense Poty, que completa 3 anos nesse mês de junho. O trabalho em si, quando analisado por completo, conversa muito bem um-som-com-o-outro, mesmo apresentando elementos muitos distintos entre as canções. Apenas é interessante notar justamente como o álbum começa –  com a faixa “Sol Menor” – e como, a partir dela, troca o passo para iniciar o ritmo que vai se tornando mais característico ao decorrer da audição. Essa distinção que sempre percebi entre a primeira com as demais faixas de Percepção me faz lembrar de outro álbum onde também vejo essa situação: Milton (1970), o primeiro de Milton Nascimento ao lado de Naná Vasconcelos, onde a gigantesca faixa “Para Lennon e McCartney” apresenta uma introdução bombástica e roqueira para um álbum onde o maior enfoque está nos violões e nas percussões-ambiências de Naná. Assim sendo, crendo não ser nenhuma desonra ter um trabalho comparado com outro do mestre Bituca, parto a falar sobre o álbum de Poty.

A introdução desse álbum serve como um convite alegórico para uma jornada introspectiva. Mas peço para que não entenda “introspectiva” como algo unicamente tímido e suave, o que até não deixa de ser o caso, mas com esse termo busco mostrar como as canções apresentadas em Percepção nos levam para um universo onírico pautado nas diversas coisas que surgem e/ou acontecem e como elas fluem dentro da consciência. Com suas tristezas e angústias, sim. Mas também com humor e acidez.

Mesmo groovada e potente, “Sol Menor” não deixa de ser incisiva e trágica, principalmente em sua letra, que já começa com “sábado é dia de ir lá fora” (uma frase que se tornou extremamente dolorida neste período de pandemia), para então abordar uma condição alienante e apocalíptica da humanidade. Dessa forma, a lírica dessa canção acaba casando perfeitamente com a sua sequência, “Anos-Luz”, que traz uma abordagem esperançosa de um lugar-oásis longe de nossa realidade, “anos-luz daqui mora uma vida / que existe sem punir e sem sofrer / ah, e o ar que vem de lá / nada é tão livre”.

Após as duas primeiras músicas já terem me chamado muita atenção, lembro bem até hoje que foi na faixa-título “Percepção” que entendi que esse trabalho de Poty se tornaria uma referência para mim, o que de fato aconteceu, visto estar retomando-o desde então e agora esmerilhando seus detalhes nesse texto. Nessa canção, as guitarras-ruídos à lá Arto Lindsay, do sempre espetacular Lorenzo Flach, criam esse ambiente de estranheza-dançante que me conquista muito. Gosto de pensar que é nessa faixa que o olho de Poty começa a sair da face (tal qual sua capa mostra), ou seja: aqui a dissonância assume sua importância na consciência do artista e também na estética do trabalho.

Dá pra dizer que “Tão Sincero” e “Imprevisão” são as canções “de frente” de Percepção, hits poéticos de se cantar junto e, sem perceber, entoar os profundos versos dessas linhas embaladas por violões e vozes e muito bem acompanhadas pelos arranjos instrumentais e selados lindamente pela captação de Wagner Lagemann e a produção de Guilherme Ceron e Ian Ramil.

A dissonância volta a tomar conta da canção em “Números Primos”; Já na poética “A Dor”, a dona da música é a interpretação vocal magnífica de Poty; E ares de Daniel Johnston me batem na cara toda vez que escuto “A Vida É Como Uma Sopa”.

“Homem-Bomba”, uma das maiores canções do álbum, realizada em parceria com Ian Ramil, me parece reunir várias potências de Percepção em suas camadas, desde a força da interpretação vocal, a dissonância que aqui vai aos poucos dando espaço para uma sonoridade instrumental-épica que inclui cordas, a letra assimilando o mundo a volta com as interpretações subjetivas que isso vai causando, efeitos percussivos usados como ambiência e um tom cabreiro que vai apertando os sentidos cada vez mais até o final da música, nos colocando na tensão de realmente estar esperando tudo explodir.

Chegando ao fim do álbum, “Sinusite” remete a sonoridade mais animada apresentada em “Sol Menor” que não foi priorizada no decorrer do trabalho, mas que aqui inserida não deixa de fazer sentido se pensar essas 12 faixas dentro do contexto de uma obra que possui seus ciclos irregulares, assim como as percepções geralmente são. 

“Lá Fora” é uma faixa curta, que serve quase como um interlúdio para a bela “Últimos Tempos”, uma canção de sonoridade leve que reflete ainda sobre as possibilidades oníricas que a consciência propõe, mas que costumam ser podadas pela realidade, assinando tudo com um refrão muito bonito.

Esses 3 anos de Percepção me servem para carimbá-lo como uma obra que desejo levar comigo sempre e espero que o tempo e essa necessidade cada vez mais constante que a sociedade cibernética tem por novidades, que acaba gerando a obsolescência de trabalhos tão relevantes, não enfraqueça o alcance desse conjunto de canções e que, pelo contrário, sirva para fortalecer e enaltecer os belos aspectos criativos que o álbum tem.

Revista Artemísia 2021.

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