“Morango do Nordeste” é o dadaísmo aplicado em nossa música popular

Por Renan Bernardi

Como um artifício automático para manter minha saúde emocional em dia, meu subconsciente de tempos em tempos me lembra de trechos aleatórios da belíssima canção “Morango do Nordeste”, e isso me alegra de forma imediata.

O que aparentava ser somente mais uma música romântica, a obra prima do compositor Walter de Afogados se tornou um ícone da música brasileira através da voz de Lairton e Seus Teclados e é constantemente relembrada pelo teor humorístico inegável (e possivelmente, ocasional) de sua composição.

Esse verdadeiro hit nacional, já foi regravado também pela banda de pagode Karametade, pelo “cãozinho dos teclados” Frank Aguiar, Chiclete com Banana e por outras entidades do nosso cancioneiro popular.

Intérprete de outros clássicos como “Fonte de Desejos”, “Porque Brigamos” e “Morango do Nordeste – Ao Vivo em Santa Inês-MA”, Lairton é um nome muito reconhecido na cultura brega brasileira. Mas é na composição de Walter que o artista ficou reconhecido, devido toda a riqueza poética de “Morango do Nordeste”.

Com uma prática claramente dadaísta, que deixaria Duchamp orgulhoso, os versos que constroem essa magnífica canção têm um valor único e de forma solitária, justamente por não fazerem muito sentido um com o outro.

Engana-se quem pensa que isso é pura ignorância e não merece reconhecimento cultural. Esse método de recorte de frases já foi assumidamente utilizado por grandes compositores como David Bowie, Bob Dylan e diversos poetas beatniks. E se pararmos para analisar, também é utilizado no refrão de “O Tempo Não Para” do eterno jovem Cazuza.

Para darmos o devido valor à esse marco definitivo da cultura brasileira, analisaremos aqui cada verso que compõe “Morango do Nordeste” e esmiuçaremos o que pode haver por trás das frases aparentemente distribuídas de forma aleatória pela canção:

 “Tava tão tristonho / Quando ela apareceu”

Até aí tudo bem, né? O início da canção nos dá indícios de que ela desenvolverá uma história de amor como outra qualquer, mas o que vem na sequência é uma obra muito intimista.

“Os olhos de fascínio / Logo estremeceu”

A arte é algo muito subjetivo, não é? Essa frase devia fazer muito mais sentido na cabeça de compositor na hora que ele compôs a canção, mas a ideia não ficou muito clara quando passada para o papel.

De quem eram os olhos de fascínio? Fascínio seria alguém ou literalmente o ato de estar fascinado? Quem (ou o quê) estremeceu? Há quem diga que a arte gera mais dúvidas do que respostas, faz muito sentido…

“Meus amigos falam que eu sou demais / E é somente ela que me satisfaz”

Nesse verso já conseguimos ver o experimentalismo poético dessa obra. Sem fazer relação alguma com o primeiro verso, o eu-lírico sai do contato visual com a pessoa amada e nos leva diretamente para uma mesa de bar com seus amigos. Onde eles, de forma não muito convencional, conversam sobre como ele é “demais” e como somente “ela” é que o satisfaz. Acredito que somente estando presente nessa mesa poderíamos entender a totalidade do sentido desse verso.

“Você só colheu o que você plantou”

Esquece a mesa de bar! Agora o autor nos leva diretamente para a vivência do campo e da dura realidade de não podermos colher mais do que plantamos.

“Por isso todos falam que eu sou sonhador”

Oi? Acho que agora voltamos para a mesa de bar. Mas essa parte eu nunca entendi direito, não tenho certeza. A única coisa que posso afirmar é que esse personagem tem ótimos amigos, não é? Porra, só elogios! Que cara bacana…

“Me diz o que ela significa pra mim”

Eu? Se nem você sabe!! E os seus amigos que tanto falam de você? Eles não podem te responder isso?

“Se ela é o morango aqui do nordeste”

Como eu disse, a música apenas aparenta ser uma canção romântica, pois nesse verso ela se revela um verdadeiro ode à uma fruta regional. E isso deixa ainda mais estranha aquela conversa que os amigos estavam tendo, né?

“Sabes, não desisto / Sou cabra da peste”

Aqui é dadaísmo puro e simples. É praticamente impossível dizer o que esse verso tem a ver com o resto da canção. A não ser pelo valor regional que “cabra da peste” pode ter em relação ao “morango do nordeste”, mas isso é pura suposição.

“Apesar de colher as batatas da terra”

Essa é com certeza a frase mais marcante da canção. Nela, retornamos para a já mencionada vida no campo. O roteiro dessa canção é muito confuso, né? Mas agora o nosso personagem tem sua profissão especificada, o que já nos dá um norte de empatia e entendimento com seu universo.

“Com essa mulher eu vou até pra guerra”

Nessa parte da canção, todo raciocínio que eu tinha tentado construir sobre ela vai por água abaixo e uma suposta mulher com espírito militarizado e armamentista entra para levar o personagem para um campo de batalha. Vê se pode! E os morangos, como ficam? E as batatas??

“Ai, é amor

Ai ai ai, é amor

É amor”

Realmente, tem coisas que só o amor pode explicar. Essa canção talvez seja uma delas.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

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