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Homem-Aranha

Por Suellen Amorim

Tenho percebido que já não observo mais com tanta frequência. Me dei conta disso enquanto olhava, sem nenhuma finalidade, as duas torres brancas e cinzas-chumbo do condomínio ao lado. Elas têm mais de 20 andares e, na altura do último andar de cada uma delas, há umas amarrações de cordas. Cada uma pequena e isolada da outra, que não me pareceram ter algum sentido de estar ali. São seis ou sete em cada um dos edifícios gêmeos, e aparentam ser o resto de alguma decoração de natal de outros tempos, quando o natal ainda era um evento em que se investia tempo e dinheiro. 

Ano passado não notei qualquer decoração natalina nos imóveis ao lado que não fossem as tímidas luzinhas coloridas, dependuradas pelos moradores de cada unidade, em suas próprias janelas. 

Mas também pode não ser nada disso. Pode não ser a reminiscência de outros finais de ano. Podem ser amarrações usadas em manutenções diversas dos imóveis. Manutenções estas que eu, em seis meses dentro de casa, nunca presenciei. Mas seis meses também não é tanto tempo assim no mundo da conservação predial.  

Há, ainda, um cabo de aço fino, parecido com um fio elétrico, que une os dois blocos. Ele está suspenso de forma descentralizada e isso incomoda as vistas. 

A respeito deste, eu divaguei mentalmente um pouquinho mais. Imaginei uma pessoa atravessando entre os dois prédios por tirolesa. Fantasiei um homem caminhando na linha fina, e sendo filmado para um campeonato desses promovidos por aquelas bebidas de aventura. Aí pensei que, talvez, o fio não suporte o peso de uma pessoa, e então inventei métodos científicos para medir o peso que este fio poderia suportar, e depois outros experimentos para saber se seria segura a empreitada da medição. E, finalmente, idealizei o Homem-Aranha atravessando, agarrado ao cabo. 

É claro que pouparia bastante energia e seria muito mais confortável, para o Homem-Aranha, descer pelo elevador, atravessar a distância de aproximadamente 50 metros que separa as edificações espelhadas, subir pelo outro elevador e alcançar o teto. Até porque não me parece que, lá em cima, haja nada além da vista para a avenida Nove de Julho sentido Anhangabaú. Mas é fato que o cabo de aço e as 12 ou 14 cordas estão lá, pendentes sob a altura de uns 60 metros ou mais. E isto é tudo que consegue prender minha atenção daqui, de dentro deste apartamento. Estou enjoada da vista.

Revista Artemísia 2021.

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