Leo Fazio é um buraco negro de referências

Foto: Reprodução

Por Renan Bernardi

Em entrevista dada em 1982 ao programa Jogo da Verdade, da TV Cultura, a célebre Elis Regina, ao ser perguntada sobre o seu consumo da música independente da época, afirma que Itamar Assumpção, Tetê Espíndola e Arrigo Barnabé, artistas que fizeram parte do movimento que ficou conhecido como Vanguarda Paulista, eram nomes que chamavam a sua atenção. E na sequência, ao ser perguntada do porquê São Paulo “tá dando tanto pé assim”, Elis deixa claro: “desde 1922, a semana de arte moderna. Moderno é ser paulista, cara!”.

E com estes tantos grandes artistas mostrando uma nova música brasileira naqueles anos, antecedidos ainda por outros movimentos que aconteceram anteriormente em São Paulo, como a Tropicália, em 1968 e a própria Semana de Arte Moderna, de 1922, as palavras de Elis mostravam-se cheias de argumentos sólidos.

Infelizmente, a nossa cantora não viveu para ver a modernidade que surgiu em outras regiões brasileiras depois dos anos 80, através dos regionalismos ressignificados tanto de Chico Science & Nação Zumbi nos anos 90, em Recife (PE), como também pelo Baiana System já no século XXI, em Salvador (BA).

Mas de fato, São Paulo concentra o polo de inovação artística de nosso país, nisso até hoje Elis estaria certa. Ela estaria muito animada em conhecer trabalhos como o do Metá Metá e todos os projetos do Clube da Encruza; assim como também estaria adorando ouvir a maluquice do jazz muito contemporâneo do Quartabê e as outras propostas que seguem uma linha semelhante à da vanguarda paulista nos trabalhos da Maria Beraldo; e não duvido que estaria gostando também de toda ousadia apresentada pelo grupo Teto Preto.

E é só desse turbilhão de música constantemente nova que há em São Paulo, que poderia sair um artista como o ímpar Leo Fazio (alguém que Elis facilmente teria se afeiçoado).

Multi-instrumentista e dono de uma voz muito singular, Leo vem construindo uma carreira musical há quase 10 anos, seja na sua antiga banda Molodoys, em projetos paralelos como o Em Coma Sintético, como também em sua carreira solo em plena atividade.

Eu me identifiquei com seu trabalho desde a primeira vez que tive contato, através de seu primeiro álbum solo, chamado Sangue Pisado & a Música do Século XXI, tendo inclusive até já escrito sobre ele em outra ocasião.

Desse trabalho, me encantei muito com a mistura quase natural com que ele somava elementos e declarava referências à artistas como Noel Rosa, Racionais MC’s, Bob Dylan, da própria Vanguarda Paulista e, principalmente de Jocy de Oliveira, através do que na época chamei de “instinto garimpeiro”, pegando os seus elementos na essência e adicionando ao seu trabalho, tornando tudo isso muito mais um produto original dele do que simplesmente uma colagem de referências.

E um trabalho assim realmente só poderia ser encontrado em meio à efervescência da sempre nova música de São Paulo, que nos apresenta, ou melhor, nos bombardeia de novidades, de propostas e de artistas que estão buscando sempre trazer algo novo.

E por conhecer tanta coisa nova, muitas vezes O novo não me choca mais / Nada de novo sob o sol e tenho que assumir que gêneros como o trap, essa mais nova variação do hip hop que vem ganhando cada vez mais força em nosso país, até então sempre tinha me deixado com um pé atrás quando somada à nova música brasileira, principalmente (como sempre) paulista.

Pra minha sorte, isso não aconteceu com Leo Fazio.

Contemporâneo como um paulista é, Leo foi influenciado pela batida do trap e somou isso ao jazz e às suas influências de Itamar Assumpção e King Krule para montar o seu mais recente EP, intitulado Se Pá…

Encabeçado por sua faixa-título, Se Pá… já ganhou elogios internacionais da rádio NPR, que definiu o compositor como “[…] brilhante e com talento para abrir caminhos alternativos, excêntricos e eletrizantes na música tradicional brasileira […]”.

Mas mesmo sem depender dessa validação gringa, o novo trabalho de Leo Fazio é realmente inovador em sua construção experimental de música brasileira em cima de jazz, trap e neo soul, me fazendo repensar esse preconceito, me deixando incomodar e botando-me agora em uma posição onde me vejo mais aberto em conhecer mais sobre o estilo.

Além de “Se Pá…”, o EP ainda conta com uma versão de “Honey I Sure Miss You”, do eterno Daniel Johnston, que aqui ganha uma camada ainda maior de melancolia e um verso rasgante em português; e também uma interpretação free-jazz do tema principal do filme Jurassic Park (pois é, o menino é foda).

Além de todos os elogios possíveis para a parte sonora desse lançamento, a faixa-título ainda foi lançada acompanhada de um clipe maravilhoso que une referências de expressionismo e do Cinema Marginal brasileiro.

Esse trabalho audiovisual é dirigido pelo cineasta e diretor criativo Adriel Maia, com assistência do poeta e também cineasta Leonardo Chagas e traz toda uma ambientação mórbida e sombria, buscando expressar elementos de claustrofobia e solidão.

Se Pá… serve também como anúncio do segundo álbum solo de Leo Fazio, Paranoia, que previsto para a segunda metade de 2020, ainda será precedido por mais três clipes-singles antes de seu lançamento.

Mas algo que já pode ser afirmado agora, é que, se antes eu definia Leo Fazio como um garimpeiro de referências, agora o entendo muito como um buraco negro, que mesmo engolindo as referências que dele se aproximam, ainda se mantém identificado como um buraco negro, algo original e ímpar.

Ouça Se Pá… no link abaixo:

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: