Hoovaranas e a Poluição Sonora boa de ouvir

Fotografia: Evelyn Sales

Por Carlos Eduardo Pereira

Enquanto escrevo, ouço a poluição sonora da cidade que entra pela janela do meu quarto. O som dos passarinhos se misturam com o som de carros acelerando e freando, buzinas e sirenes. Em meio a todos esses sons, toca o álbum “Poluição Sonora”, dessa banda que me foi apresentada há duas semanas por um amigo que insistiu que eu publicasse sobre ela, exaltando o esforço dos caras em entregar um trabalho de qualidade. Dá pra se dizer que essa matéria foi carinhosamente e gratuitamente encomendada.

“A gente se reunia nos domingos para fazer um som sem compromisso, só por diversão. Depois de algumas jam’s, nós decidimos formar a banda oficialmente.”

Apesar do nome, ao ouvir o disco você consegue fugir de qualquer ruído e cair num limbo de melodias harmoniosas e frenéticas ao mesmo tempo. Ouça e assista o álbum visual e leia a trajetória da banda até aqui contada por eles mesmos, numa entrevista concedida para a Revista Artemísia.

O álbum composto por oito faixas, foi gravado em setembro de 2018, totalmente ao vivo, dentro de um galpão numa chácara no município de Castro/PR. Em algumas músicas, surgem barulhos urbanos, entre eles o do trânsito, pedestres, ambulâncias, vento nos prédios e até mesmo a chuva. Tudo pensado para que quem esteja ouvindo mergulhe no conceito da poluição sonora de uma cidade caótica.

“A maior parte das músicas do álbum surgiram de improvisos que fizemos logo no início da banda, é o caso da Quartzo, Tropical, Esfinge e Sombra. Outras músicas como Ressaca, Mantra e Poluição Sonora a gente foi fazendo por partes. Assim que fechamos a banda, nós já definimos o conceito do álbum em poucos dias. Junto com o conceito do álbum veio automaticamente em nós a vontade de fazermos um álbum visual captando o caos urbano da nossa cidade.”

Essencialmente psicodélico, “Poluição Sonora” passa por diversos estilos musicais: começa com Surf Music, segue pelo Rock Progressivo e Psicodélico e acaba no Stoner Rock. Faz também referência ao Baião, Tango, Música Egípcia e Música Indiana.

“A gente até procurou uma vocalista quando a banda ainda não estava formada oficialmente, mas como não sabíamos cantar e estávamos cansados de procurar por alguém, decidimos fechar o projeto instrumental mesmo, ainda mais que estávamos gostando muito das jam’s que estávamos fazendo.”

No YouTube foi lançado como álbum visual, contextualizando cenas do cotidiano urbano, gravadas em parceria com o produtor cultural, músico e fotógrafo, Danilo Gabriel, buscando ângulos que captam pontos de vista alternativos do centro da cidade, onde a música se torna trilha sonora dos acontecimentos. 

Segundo a banda, o desejo incansável de fazer música deu origem ao “Poluição Sonora”. A gravação em uma chácara isolada foi parte relevante no processo de criação. “Ao nos afastarmos da cidade, pudemos sentir com clareza o caos urbano que continuava ressoando dentro de nós e então traduzi-lo com nossos instrumentos. Essa é a essência da hoovaranas, a transmissão do que sentimos, gerando uma massa sonora com propósito, carregada de sensações e significados”.

“No início da banda nós fazíamos apenas alguns improvisos e ao trabalhar com esses improvisos começamos a fechar as nossas primeiras músicas. Agora [o processo criativo] é algo mais colaborativo, todos nós participamos da criação da música em todos os instrumentos da banda (guitarra, bateria e baixo) e também estamos fazendo as músicas por trechos, não mais tanto por improvisos.

Fotografia: Evelyn Sales

hoovaranas surgiu em meio aos eventos alternativos e independentes de Ponta Grossa/PR, apresentando-se em bares, eventos e festivais. Divulgando seu material, a banda progressivamente busca espaço para mostrar e fazer seu som.

“Nosso sonho é rodar o mundo fazendo o nosso som. Estamos começando a tocar fora da nossa cidade agora e queremos ir cada vez mais longe, nos apresentando em diversos festivais e rolês alternativos pelo Brasil. Também estamos com várias músicas novas que pretendemos lançar muito em breve.”

O lançamento do primeiro álbum é um marco para a banda e para a cena alternativa e independente de Ponta Grossa, que está florescendo com seus músicos, pintores, poetas e produtores. Assim como o nome da banda, o álbum visual é também uma homenagem à cidade, para eternizar a conexão da banda com sua terra natal, mostrando o que ela tem e é capaz de produzir.

O caos e suas peculiaridades contidas no álbum foram representadas por meio de diversas referências, estilos, sentimentos e sensações. Da agitação à calmaria, da agressividade ao relaxamento, são oito faixas que levam quem está ouvindo a imergir em uma viagem frenética, passando por diversos países e culturas. São várias experiências, que também são transmitidas nas apresentações ao vivo.

Capa do “Poluição Sonora”. Pintura: “Depois da Tempestade”, por Saulo Pfeiffer.

Todo o processo de gravação desse primeiro álbum foi registrado, resultando no documentário “Depois da Tempestade”. O nome é uma homenagem à pintura feita pelo pintor pontagrossense Saulo Pfeiffer, que deu à banda a honra de utilizá-la como capa do álbum.

“Nós a vimos pela primeira vez em um evento que fomos tocar ano passado aqui em Ponta Grossa/PR, evento em que o pintor Saulo Pfeiffer que é o autor do quadro estava fazendo uma exposição, mas até então não tínhamos decidido se seria aquela capa, pois queríamos gravar o álbum primeiro. Após a gravação do álbum decidimos que a capa seria a pintura “Depois da Tempestade” do Saulo, pois vimos que a pintura combinava perfeitamente com o som que gravamos.”

O documentário foi produzido pelo produtor cultural, músico e fotógrafo Danilo Gabriel e segue uma linha parecida com a do álbum visual, captando a essência do conceito e aqueles pequenos detalhes que às vezes passam despercebidos.

“Percebe-se que a música alternativa tem tido cada vez mais espaço na cena musical Nacional e Internacional. A gente notou uma explosão de bandas novas aqui na nossa nossa cidade e a maioria delas com uma sonoridade bem fora dos padrões, com influências de bandas não tão antigas. O fato de bandas de diversos gêneros musicais alternativos e até então desconhecidos têm motivado os e as artistas a fazerem algo diferente também. Tanto a nossa cidade, quanto o estado e o país em si, têm consigo uma cena muito forte e que está crescendo cada vez mais!”

A banda está produzindo novas músicas, já visando o próximo álbum. No episódio 364 do programa Tenda, a banda apresentou a música “Garoa”:

hoovaranas é:

Rehael Martins (Guitarra)
Eric Santana (Bateria)
Jorge Bahls (Baixo)

Ficha Técnica (Álbum Visual):
Produção: Danilo Gabriel
Edição: Eric Santana

Ficha Técnica (Áudio):
Produção Musical e Técnica: Nhanha A. Anhaia
Gravação: Nhanha A. Anhaia
Mixagem e Masterização: Nhanha A. Anhaia
Capa do Álbum por Saulo Pfeiffer

Ouço o álbum no Spotify:

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

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