Eu não tenho sete vidas

Por Carlos Eduardo Pereira

Eu sei que vou morrer. Bom, acho que todo mundo sabe. Mas eu tenho quase certeza absoluta que irei morrer ou atropelado, ou esfaqueado ou com um tumor na cabeça. É uma destas opções, não aceito nenhuma outra forma. Pode até ser as três de uma só vez.

Saio da clínica onde o doutor, com a maior tranquilidade, – pois ele já sabia que eu sabia que iria morrer com um tumor e que ele também vai morrer, então se preocupar com a minha morte é o menor dos seus problemas – exibindo o exame como se fosse uma obra de arte, me explica o que tenho na cabeça e por que eu tenho que sair da sala dele logo e ir viver, pois só tenho sete meses de vida.

Ele diz que ainda não tem um tratamento adequado para esse tipo de tumor e que é melhor eu aproveitar a vida, tomar uns remédios pra dor, talvez uns paracetamol que a mãe sempre me dá quando tô com qualquer tipo de dor, e esperar a morte chegar numa cadeira de balanço que comprei especialmente pra essa ocasião.

Eu dou risada na cara dele e cuspo dentro da caneca de café gelado que o grandioso doutor não teve tempo de tomar, porque tava muito ocupado segurando a obra de arte dele.

Pego minha mochila e saio correndo pelo corredor da clínica. Quando chega na recepção a moça ensaia um “tenha um bom dia” antes de eu gritar para ela TENHA UMA ÓTIMA VIDA.

Quando saio na porta de vidro de clínica de gente rica, tomo um choque térmico por causa do calor que faz aqui fora, nem perto do clima harmonioso que fazia lá dentro. O clima harmonioso das clínicas é só pra te mostrar que tu nunca vai ser rico o suficiente pra ter um ar condicionado em casa, e te preparar pra dizer que tu vai morrer em breve.

Tomado pelo choque térmico, esbarro em um assaltante que tava fugindo com quase 7 mil em dinheiro dentro da mochila, de onde saca uma faca e, sem chance de eu tentar dizer que ele tá certo, tem que roubar dos mais ricos mesmo, ele me esfaqueia sete vezes na barriga e sai correndo.

Mesmo com meu sangue escorrendo pelo meu corpo, tento atravessar até a farmácia onde meses atrás fui medir minha pressão e a moça falou que eu tinha que me acalmar, se não iria acabar morrendo antes mesmo de chegar até a farmácia pra medir minha pressão.

Cambaleando, chego até a metade da rua. Olho para minha esquerda, um fusca vem acima da velocidade permitida para o centro da cidade, me atropela, lançando meu corpo até perto de uma cadeira de balanço que tava a venda na calçada. Agora tô aqui, esperando o doutor vir me dizer que errou o diagnóstico e que na verdade, eu só tinha sete minutos de vida.

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