Espetáculo “ATERRA” retrata as dificuldades enfrentadas por um personagem LGBT+ no início do século XX

Por Marcos Anubis / De Iverno Comunicação

Fotografias: Túlio Prado

A peça, protagonizada pelo ator Renan Bonito, de Jacarezinho, no interior do Paraná, é uma das atrações da 28ª edição do Festival de Curitiba

O espetáculo “ATERRA”, um solo do ator Renan Bonito com direção de Adelvane Néia, marca a estreia da Companhia da Terra, composta por artistas da cidade de Jacarezinho, no interior do Paraná. A peça aborda a questão LGBT+, um dos temas mais atuais na sociedade brasileira, por meio de um personagem caipira que vive no início do século XX, e será encenada no Fringe do Festival de Curitiba 2019, nos dias 27, 28 e 29 de março, no Auditório Antônio Carlos Kraide, no Portão Cultural.

“ATERRA” também está entre os espetáculos do Festival de Curitiba que contará com um intérprete de Libras. A intenção dessa atitude é ampliar o alcance da arte, fazendo com ela chegue ao maior número de pessoas possível. A peça estreou em outubro de 2018 na cidade de Jacarezinho e já foi encenada em algumas cidades do norte do Paraná.

Os ingressos para o espetáculo já estão à venda no site do Festival de Curitiba e nos pontos físicos localizados no ParkShoppingBarigüi e no Shopping Mueller.

O espetáculo será apresentado nos dias 27/03 (quarta-feira), às 12h, e 28/03 (quinta-feira) às 15h. No dia 29/03 (sexta-feira), às 15h, a apresentação contará com o intérprete de Libras.

Concepção e pesquisa 

No processo de aterramento, o ser humano deixa pelo caminho as decisões e vontades como se fossem sementes condenadas a não florescer. Nessa situação, os desejos mais profundos das pessoas são jogados pelo caminho e elas acabam se afastando cada vez mais da essência humana, seja por decisão própria ou influência de terceiros.

Esse é o ponto de partida para a peça “ATERRA”. A partir dessa perspectiva, o espetáculo aborda o tema LGBT+ de uma maneira muito particular que promete surpreender o espectador. O enredo da peça se passa em Jacarezinho, entre os anos 1920 e 1950, e narra a vida de um homem simples que vive em conflito com seus “aterramentos”. No palco, a vida do personagem é contada por meio de cenas poéticas e diálogos com os objetos em cena, procurando estabelecer uma relação direta com a plateia.

O espetáculo propõe uma reflexão sutil e emocionante sobre a homoafetividade do personagem e o conceito de família. “Infelizmente, em muitas situações, não conseguimos abordar a temática LGBT+ de forma objetiva e prática devido a todo esse momento de crise humana que vivemos”, observa Renan Bonito. Essa questão torna-se ainda mais forte porque, na peça, ela é retratada no interior do país e no início do século XX, época em que o debate sobre o tema era praticamente inexistente.

Implicitamente, o espetáculo também acaba trazendo a tona os conceitos contemporâneos de identidade e representatividade. “Quando optamos por tratar da temática em um contexto de 100 anos atrás por meio da cultura caipira, criamos um ambiente de empatia com o personagem. Assim, conseguimos fazer com que a público receba com naturalidade qualquer característica do ser humano”, complementa Renan.

A dramaturgia do espetáculo “ATERRA” foi construída por meio da metodologia de pesquisa e criação do teatro documentário. O objetivo dessa escolha não é criar uma ficção baseada em fatos que ocorreram, mas organizar um discurso a fim de refletirmos sobre a nossa história passada. Apesar de ser um solo, o espetáculo também conta com a participação da atriz Gabriele Christine, que atua como uma espécie de contrarregra. Durante a peça, Gabriele estabelece uma presença invisível e compõe o ambiente sonoro de forma sutil.

Instalação performática

Enquanto o público aguarda o início da apresentação, a proposta da Companhia da Terra é sensibilizar a plateia com a temática do espetáculo. Para isso, no saguão do Portão Cultural, as pessoas serão convidadas a interagir com uma instalação intitulada “O que nós temos aterrado?” onde, partir de um texto poético, os artistas convidam o público a refletir e enterrar suas reflexões em um monte terra.

O conceito da instalação gira em torno da ideia de que, desde a nossa primeira respiração até a última batida do nosso coração, nós somos bombardeados por negações, mudanças e desistências. Invariavelmente, quase todas elas são deixadas pelo caminho como sementes podres, mas nem sempre essas decisões foram apenas nossas. Muitas vezes, elas vêm de alguém que diz o que deveríamos fazer. A pergunta é: “o que você tem aterrado”?

Arte para todos

Um dos diferenciais da peça é que ela conta com o intérprete Jonatas Medeiros, da Fluindo Libras. A intenção dessa atitude é  levar o conteúdo do espetáculo ao maior número de pessoas possível.  “A Libras é uma língua oficial no Brasil, assim como o português, e sua acessibilidade é garantida por lei. A partir disso, para mim torna-se óbvio e necessária oferecer uma apresentação bilíngue. A arte que eu produzo é pensada para que o máximo de cidadãos tenham a oportunidade de acessá-la e assim, fazer com que eles possam refletir sobre o nosso próprio meio”, explica Renan.

A inspiração da peça veio da própria cidade de Jacarezinho, no norte do Paraná. No processo de pesquisa, foram reunidos depoimentos de moradores que viveram na área rural no início da formação da sociedade local. Dessa forma, foi possível explorar histórias, vivências, memórias e imagens que marcaram a vida desses moradores em relação à terra na qual vivem.

Esteticamente, a poesia na peça é usada como uma linguagem de comunicação e de abertura de signos e sentidos. Com isso, une-se o lirismo e a musicalidade na construção das cenas e do texto teatral. Dessa forma, “ATERRA” é uma montagem de poesia documental.

A trilha sonora do espetáculo é assinada pela compositora londrinense Lila Pastore e tem como base o som rural e a viola caipira, além de músicas que marcaram as primeiras décadas do século XX.

Ficha técnica

Ator: Renan Bonito. Direção: Adelvane Néia. Dramaturgia: Renan Bonito e Adelvane Néia. Participação especial: Gabriele Christine. Cenário e Figurino: Cesar Almeida.Trilha Sonora: Lila Pastore. Operação de som: Mariana Montezel. Iluminação: Gabriela Santos. Operação de luz: Juliane Rosa. Assistente de Palco: Júnior Rocha. Intérprete de Libras: Jonatas Medeiros (Fluindo Libras). Yoga: Jê Kumagai. Artista Plástico: Edmilson Donizetti Do Nascimento. Designer Gráfico: Catherine Marquesine. Xilogravura (Arte Gráfica): Carolina Sobreira. Produção: Companhia da Terra. Assessoria de Imprensa: Marcos Anubis/De Inverno Comunicação.

Renan Bonito

Renan Bonito Pereira é ator, produtor e professor. Começou na área teatral em 2004.É graduado em Teatro, licenciatura e bacharelado pela Universidade Federal de Uberlândia/MG em 2014, além de pós-graduando em ‘Educação e Sociedade’ pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR ), no campus de Jacarezinho.

Entre 2009 e 2016, trabalhou em diversas peças e apresentações artísticas em Uberlândia, Minas Gerais, em especial com a Cia Teatral Confraria Tambor. Com a Cia, Renan encenou durante sete anos o espetáculo “As Criadas”, de Jean Genet, que foi premiado como “Melhor Espetáculo” em três festivais (Patos de Minas/MG, 2009; Pirenópolis/GO, 2013 e Uberlândia/MG em 2013). Também participou dos espetáculos infanto-juvenis premiados “A Nova Roupa do Imperador” e “O Mágico de Oz”, entre outros.

De volta a sua cidade, em Jacarezinho, atuou como curador da Mostra de Teatro EnCena da cidade em 2017 e 2018. Atualmente, Renan Bonito é produtor cultural na CNX Produções, integrante da Companhia da Terra e vice-presidente da ONG Núbia Rafaela Nogueira, uma associação que luta em prol da comunidade LGBTI+ de Jacarezinho e região.

Adelvane Néia

Adelvane Néia é atriz, palhaça, diretora e criadora da Cia Humatriz Teatro. É graduada em Artes Plásticas pela Faculdades Integradas de Ourinhos (FIO), em 1982. Entre 1983 e 1985, estudou Arte Dramática no Curso Permanente de Teatro (CPT) da Fundação Teatro Guaíra, em Curitiba.

Em 1989, iniciou na linguagem do palhaço em Campinas, no interior de São Paulo, com Luis Otávio Burnier da Lume Teatro. Em 1990, participou do estágio “Treinamento Cotidiano do Ator”, com Luis Otávio Burnier, Carlos Simioni e Ricardo Puccetti. Entre os anos de 1994 e 1996, participou da “Assessoria Permanente da Técnica de Clown” e do espetáculo “Mixórdia em Marcha-Ré Menor”, com orientação e direção de Ricardo Puccetti.

Em 1997, estreou o solo “A-MA-LA”. Com a direção de Naomi Silman, a peça circulou durante 15 anos por festivais nacionais e internacionais, entre eles, o “Anjos do Picadeiro”, no Rio de Janeiro, a “Mostra Internacional de Teatro – Fórum Cultural Ermesinde”, em Portugal, e o “4t Festival Internacional de Pallasses”, em Andorra. Atualmente, Adelvane Néia faz parte do corpo docente da Escola Itinerante de Palhaças de São Paulo e do Palhaças em Rede.

Serviço

O que: Espetáculo ”ATERRA”, um solo do ator Renan Bonito com direção de Adelvane Néia, da Companhia da Terra.

Onde: Auditório Antônio Carlos Kraide, no Portão Cultural (Avenida Rep. Argentina, 3430, Portão).

Quando: 27 (12h), 28 (15h) e 29 de março (15h, com Intérprete de Libras).

Quanto: 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada). Vendas no site do festival e nos pontos físicos localizados no ParkShoppingBarigüi.

Classificação etária: 16 anos.

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