Bom descanso, Walter Franco: o poeta concreto da música brasileira

Foto: Divulgação

Por Renan Bernardi

É bem conhecida a relação que existe entre a poesia e a música brasileira. Os grandes nomes da nossa MPB, principalmente, são sábios usuários dessa união.

Nomes como Caetano, Gilberto Gil, Milton Nascimento e Belchior são indiscutivelmente escritores de mão cheia, com letras marcantes e inesquecíveis dentro da nossa cultura popular.

Mas acredito que o que faz um bom poeta esteja ainda além do bom uso das ideias expressadas em texto. Assim como na maioria das artes, o bom escritor é aquele que, em sua obra, consegue demonstrar um traço definitivo de identidade, de personalidade. É realmente grandioso quando conseguimos, apenas através da leitura textual, identificar uma semelhança ao estilo de um artista que conseguiu, através de sua escrita, deixar essa marca tão única.

É dessa maneira que conseguimos identificar Leminski, Allen Ginsberg, e no nosso caso de letristas musicais, Bob Dylan e aquele que considero o seu equivalente brasileiro, Chico Buarque. Sem deixar de destacar as influências diretas da poesia de cordel e de martelo alagoano nas letras dos primeiros álbuns de Alceu Valença e Zé Ramalho.

Porém, distante dos longos discursos que marcam a identidade da maioria dos escritores acima, existiu um movimento artístico no Brasil dos anos 50 que considerou o poder e a dimensão da palavra de maneira nunca antes vista: o Concretismo.

Tendo como grande exemplo Augusto de Campos, a poesia concreta se preocupava em perceber as diversas possibilidades que a mesma palavra ou frase podia ter, a partir de sua etimologia ou mesmo da inusitada construção de outras ideias dentro de algo já antes citado.

Diferente da poesia discursada, o concretismo era extremamente visual, quase como uma pintura que fazia da palavra a musa inspiradora e protagonista dos quadros que pintava.

greve
“Greve” – Augusto de Campos (1962)

E é fortemente inspirado nesse movimento que se baseou a obra de Walter Franco, o poeta concreto da música brasileira, falecido na manhã desta quinta-feira (24/10/19), aos 76 anos.

Surgindo após o movimento tropicalista dos anos 60 e muito influenciado por algumas das propostas apresentadas por ele, Walter montou o seu próprio vanguardismo musical em São Paulo, quase uma década antes de surgirem Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e Luiz Tatit consolidando o termo “vanguarda paulista”.

O seu primeiro álbum, Ou Não (1973), foi um marco da experimentação dentro da música brasileira. Se utilizando de inovadores estilos de produção e arranjo, Walter foi minimalista e, ao mesmo tempo, explosivo, conseguindo, de forma puramente acústica e orgânica, romper limites que nem mesmo as ousadas guitarras da Tropicália conseguiram.

Nesse e nos seus  álbuns seguintes – destacando aqui o seu maior sucesso comercial, Revolver (1975) – Walter Franco trabalhava harmonias aparentemente simples de forma muito ousada, lembrando um pouco o que veio fazer o também recentemente falecido Daniel Johnston em anos seguintes às primeiras obras de Walter. Só que diferente desse, as letras do brasileiro não eram diretas e compreensíveis;  e sim, propostas de poesia concreta transformadas em música.

É justo, portanto afirmar que Walter transgrediu o concretismo, que já era vanguardista em ser visual, em algo também sonoro.

O reconhecimento disso é declarado até por membros do próprio movimento, visto que o grande Augusto de Campos mesmo traduziu a letra de “Cabeça” para o inglês e publicou-a no exterior.

Entre outros exemplos, canções como “Xaxados e Perdidos”, “Eternamente” e “Partir do Alto” mostram facilmente como esse artista conseguiu mudar o panorama de arte em geral no Brasil, fazendo de uma vez só palavra, som e imagem serem apresentados como algo único.

Bom descanso, Walter!

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