Um show que deslumbra – Entrevista com a banda Carne Doce

Por Carlos Eduardo Pereira

Depois de um dia de calor, dedicado a arrumar as barracas e acampamentos, às 20h, sem atraso, a Carne Doce entrou no palco Lunar. “Agora sim começou o Psicodália!” gritou uma pessoa atrás de mim alucinada com o espetáculo que estava em nossa frente. A banda fazia daquela noite inesquecível.

Antes do show, a banda já prometia: “vamos tocar principalmente músicas do ‘Princesa’ e  uma inédita do próximo disco. Vai ser um show potente e dedicado como a gente gosta de fazer”, e foi. O quinteto composto pelo casal Salma Jô (voz) e Macloys Aquino (guitarra), além de Aderson Maia (baixo), João Victor Santana (guitarra e sintetizador) e Ricardo Machado (bateria), se dedicaram a abrir o festival na melhor forma possível.

Em uma hora de show, o público foi ao êxtase com tamanha magia da banda, que deixou o palco com o coro de “mais um”.

Entrevistamos Macloys e Salma que falaram um pouco sobre a carreira da banda e o cenário musical brasileiro atualmente:

Qual dos dois discos de vocês houve uma maior dificuldade em termos de produção? Como vocês vem a recepção do “Princesa” após o sucesso do “Carne Doce”. Houve uma maior preocupação com a recepção do segundo disco?

Mac – Quem diria melhor sobre as dificuldades técnicas seria o João, nosso guitarrista e produtor desses dois discos (e que também produz o que estamos fazendo neste momento). Mas é certo que em ‘Princesa’ estávamos melhores como grupo, afinal já tocávamos há mais tempo juntos. Processo que se repete na produção atual, estamos tecnicamente melhores agora que em ‘Princesa’, que teve uma recepção além do que imaginávamos. É um disco longo, com músicas longas e digressões, o que em tese dificultaria o acesso, mas que acabou bem aceito.

Qual é a percepção de vocês sobre o cenário musical brasileiro atualmente? Que conselho vocês dariam para uma banda que está começando?

Mac – Eu fico otimista observando projetos de sucesso próximos, BaianaSystem, francisco, el hombre, Boogarins, Letrux e outros. São bandas contemporâneas nossas, algumas amigas, que têm relevância artística e aparente solidez profissional. Digo aparente porque a realidade da música independente no Brasil não é de solidez, de fato. Talvez um efeito do momento tecnológico ou social atual, que torna tudo tão volátil, mas ainda assim não encontro razão em argumentos do tipo “é tudo uma bosta”, “é culpa do público”, como se vê por aí. Pelo contrário, o sucesso está escancarado nestes exemplos. Pra quem começa: é muito importante que sua música seja boa. Boa mesmo. E que, em paralelo, você enxergue seu projeto artístico também como negócio, como empresa.

 Como é o processo de criação de vocês?

Mac – Agora estamos experimentando o momento mais banda que tivemos até aqui. As canções costumavam surgir com Salma e eu, e depois é que trabalhávamos em conjunto. Há novas agora sendo feitas por todos, ali no ensaio a canção surge no meio de arranjos, tudo. João, nosso produtor, também desenha baterias, baixos, harmonias. Ele trabalha essa produção artística desde o início.

As músicas de vocês tratam bastante sobre problemas sociais, como o machismo e racismo. Sempre houve essa ideia de posicionamento ou surgiu naturalmente nos ensaios e produções das letras?

Mac – As letras são todas da Salma, que é inquieta e sensível a questões sociais. Não tem nada de obrigatoriedade. Ela realmente gosta de pensar as causas das coisas e de criticar, as pautas públicas acabam inspirando. Mas ela também encontra motivos na vida íntima e em questões subjetivas.   

Até por esse posicionamento deve ter muita gente que se sente incomodado com tanta opinião. Como vocês lidam com o ódio na internet?

Salma – Eu gostaria de lidar melhor, porque eu realmente me comovo com o ódio, e sinto que acabo valorizando uma expressão que é muito menos frequente do que todos incentivos e palavras positivas e críticas razoáveis que a gente recebe. A lição que a gente aprende é que o melhor mesmo é ignorar.

Como a internet beneficia o trabalho de divulgação da banda?

Mac – Ela é a nossa plataforma quase que exclusiva, é onde existimos, onde somos encontrados e compartilhados. É nossa maior ferramenta de trabalho, o que me preocupa às vezes, tamanha dependência.

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Salma Jô encanta o público no Psicodália 2018/ Foto de Isadora Stentzler

Como ocorreu a produção do clipe da música “Falo”?

Mac – Já havíamos feito ‘Artemísia’ com a Muto, produtora de Campinas, que se entusiasmou com a gente. O disco já estava lançado e o Bruno Alves, diretor, tinha uma ideia de roteiro e de produção: a fazenda onde gravamos, a técnica, luz, elenco, tudo. Salma participou muito palpitando no roteiro e também na produção, durante a gravação.

Salma, como é trabalhar em um ambiente “majoritariamente” masculino? Na letra de “Falo” você diz, “eu posso até rir enquanto você conta uma piada que era minha, uma ideia que era minha”, neste ambiente musical, já houve esse tipo de coisa?

Salma – Essa frase na verdade é inspirada no Mac, haha, ele ainda faz isso, eu sempre o repreendo no ato. Não é um sofrimento estar num meio majoritariamente masculino, não me faz desejar estar num meio majoritariamente feminino. Rola uma dinâmica e uma tensão específica por conta de ser uma mulher e quatro homens. Eles provavelmente se sentiriam ainda mais confortáveis e livres numa formação completamente masculina, eu compreendo isso, mas da minha parte, a minha forma de participação, e que eu acho muito confortável, é bem egoísta e um tanto autoritária: eu faço as letras e as melodias de voz sozinha, nunca em conjunto, quando eu as apresento, eles nada palpitam, só aceitam, rs. Eu até estou tentando relaxar um pouco isso nesse disco.

Qual cantoras/ artistas brasileiras influenciam teu trabalho?

Salma – Elis. Atualmente fiquei ligada na Luiza Lian, gosto demais do timbre dela.

Salma e Macloys, como é compor e cantar músicas sentimentais trabalhando juntos? Há uma carga maior de sentimento ao cantar e tocar as músicas?

Salma – É bonito se emocionar no seu trabalho com o seu parceiro, é bonito por si só que buscar a emoção seja parte do trabalho. Acho que a gente encontra muito sentido nesse exercício. E a história do casal, a partitura do casal é construída junto com esse projeto tão emocionante, é uma sorte muito grande.

Mac – Hoje é o nosso projeto de vida, porque esse trabalho conjunto não se faz só no ato de compor e de se apresentar, mas administramos tudo juntos, desde o agenciamento até a produção executiva de shows e tours. É mesmo uma grande sorte poder viver isso desse jeito.  

Para 2018, o que podemos esperar de novas produções da banda?

Salma – Estamos na pré-produção do novo disco, terminando de arranjar as músicas. Devemos lançá-lo em junho, antes vão rolar uns singles e clipes sim.

Fotografias por Isadora Stentzler

Falo

Direção: Bruno Alves

Roteiro: Bruno Alves, Pedro Ferrarezzi e Salma Jô

Direção de Fotografia: Pedro Ferrarezzi

Edição e Cor: Bruno Alves e Pedro Ferrarezzi

Iluminação: Hugo Aboud, Matteus Lopes e Nicolas Milanes

Produção: Lydia Caldana Figurino: Lydia Caldana / Carolina Ancasy

Direção de dança e coreografia: Gabriela Branco

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

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