A Nuvem Colona está chamando chuva! (Vol. 2)

Por Renan Bernardi

Quando fiz a matéria “A Nuvem Colona está chamando chuva!” disse, no final do texto, que já estava ciente que tinha deixado de falar sobre alguns artistas que também se usam da colonagem como artifício artístico (e político) em suas obras. Junto com essa declaração, fiz o pedido para que, quem soubesse de outros nomes que sejam alinhados com essas ideias, me indicasse para compor uma nova matéria.

E é assim que surge o Volume 2 da nossa lista curadológica de artistas que estão fazendo o vento virar e chamando chuva na nuvem colona.

Dessa vez, para possibilitar abrangermos mais ações, falaremos de artistas que se usam do nosso meio (o oeste catarinense) em suas obras, citando a colonagem ou não. Mas que, mesmo assim, não deixam de situar a sua existência, afinal, são observadores sensíveis de nosso espaço.

Petter Baiestorf / Canibal Filmes

Para começar, falaremos de um nacionalmente reconhecido cineasta de Palmitos.

Petter Baiestorf e a sua produtora, a Canibal Filmes, são responsáveis pela produção, montagem e divulgação de uma grande série de longas e curtas-metragens desde os anos 90.

Situando a sua estética em uma proposta irônica de cinema trash de horror ambientado no espaço em que vive – o oeste catarinense, com as referências diretas ou indiretas do cinema do subdesenvolvido, Petter é consideravelmente reconhecido nos undergrounds (ou udigrudis?) de todo o país por sua gorechancada.

A sua história de produção independente tem uma linha evolutiva de quase 30 anos, na qual podemos observar uma série de elementos que, se a princípio não despertam a clareza do lugar de onde foram tirados, quem vive aqui consegue entender por osmose de vivência que “Chimarrão Zombies” só podia ser criado nessas terras.

Para não me esticar muito falando apenas de Baiestorf, adianto que recentemente ele teve um bem concluído catarse para o lançamento de seu livro “Canibal Filmes – Os Bastidores da Gorechancada”, onde conta a história de sua produtora com depoimentos de diversos agentes que fizeram parte dessa trajetória.

– Facebook da Canibal Filmes

Margot Filmes

Continuando a falar sobre produções audiovisuais, outro trabalho muito interessante desenvolvido no oeste catarinense – e agora, mais explicitamente voltado para os elementos da nossa região – é o realizado pela Margot Filmes, de Chapecó.

Criada em 2006, a Margot também segue a linha de produções independentes, só que focada mais em documentários de média e longa-metragem.

Seus filmes são voltados para questões que estão muitas vezes fora de foco, mesmo que sempre estejam e estiveram ao nosso redor. Seja falando dos rituais indígenas da Aldeia Condá em “Kiki – O Ritual da Resistência Kaingang”; Sobre a migração de filhos de agricultores em “Celibato no Campo”; Sobre a qualidade da produção artesanal de um dos alimentos mais típicos de nossa região em “O Salame Vai À Feira”; ou na preservação histórica de um artista de nossa região em “O Poeta de Cordel”, a Margot preenche um espaço importantíssimo de criação de conteúdos que nos mostram uma visão mais artística e sensibilizada das nossas coisas.

– Site oficial da Margot Filmes

Impresso Marginal

Funcionando como um coletivo de artistas desde 2016, o Impresso Marginal é uma fanzine que atua também como manifesto artístico.

Com a maioria de seus produtores localizados em Xanxerê, o Impresso já possui 10 edições de obras selecionadas que incentivam a produção de uma literatura marginal, livre e audaciosa, mesmo (ou exatamente por causa disso) em uma região provinciana como a nossa.

Para conferir, basta acessar o site oficial, que contém todo esse conteúdo interessantíssimo disponível gratuitamente.

– Site oficial do Impresso Marginal

– Instagram do Ingresso Marginal

Gustavo Reginatto

Criado em Concórdia e hoje atuante na capital catarinense, Gustavo Reginatto é um artista visual e escritor com uma capacidade surreal de transformar o banal em admirável apenas contextualizando (ou descontextualizando?) um objeto, elemento ou comportamento.

Está à frente também da Editora Caseira, que conta com lançamentos de livros artesanalmente editados tanto do próprio Gustavo como também de outros artistas.

Entre as suas obras, gostaria de destacar o “Pequeno Manual do Empoderamento Gráfico”, onde ele justamente nos introduz técnica e sensivelmente com a produção artesanal de um livro.

Além deste, o “Convites Para Caminhada”, livro que é resultado de uma pesquisa em colaboração com o Sesc SC, traz à tona muito do que o Gustavo mostra em seus trabalhos: uma visão mais calma e detalhada do ambiente que nos cerca.

– Site oficial da Editora Caseira

– Instagram do Gustavo

Artêmio Filho

Além de ter ajudado o Gustavo Reginatto na elaboração do projeto “Convites Para Caminhada”, Artêmio é um doce habitante de Concórdia que já mostrou sua veia poética no livro “Solstícios e Equinócios”, produzido pela Editora Caseira.

Mas além disso, Artêmio é um dos nomes por trás da Sabiá Gestão Criativa, uma ideia que “busca ressignificar os processos de gestão, experimentando abordagens mais humanizadas, não padronizadas e de inovação social” aplicando isso tanto para empresas, como para artistas e produções socioculturais.

– Site oficial da Sabiá

Instagram do Artêmio

Humana Sebo e Livraria

Uso o nome desse – mais do que – sebo, – mais do que – livraria e – mais do que – galeria – para falar dos personagens que o compõe.

A Humana, que abriu as portas em Chapecó no ano passado, inclui em sua equipe artistas e estudiosos da arte, da educação e da sociedade, que fazem desse espaço não só um divulgador, mas também um incentivador e inspirador ambiente artístico.

Janaína Corá é uma artista visual, mestra em Educação pela Unochapecó e professora de Artes; enquanto Daiana Schvartz é Doutora em História da Arte pela UFRGS e professora do IFSC; Ricardo Machado é historiador e curador; e Fernando Boppré, que também historiador e curador, acaba de lançar seu primeiro livro de poemas, “Poço Certo”, lançado pela Editora Caiaponte (a mesma que lançou “Nuvem Colona”, de Gustavo Matte).

– Instagram da Humana

– YouTube da Humana

Monica Hoffmann

Aplicando em nossa lista artistas que não costumam estar presentes em galerias e espaços mais convencionais de exposição artística, é mais do que importante falar da agricultora e artesã Monica Hoffmann.

Quem conhece e acompanha o trabalho e a vivência artística de Mariana Berta, vai entender e admirar muito o que a Monica faz. Afinal, suas práticas, defesas, trabalhos, pensamentos e processos artísticos se misturam e tomam forma no que ela nos apresenta em suas redes sociais.

A valorização do trabalho manual, das coisas que a terra nos proporciona e aquilo que podemos fazer dela são alguns dos elementos que essa artista da vida pode nos mostrar.

– Instagram da Monica

– Instagram da Arte Jeans Ateliê

Artesanato é arte!

Aproveito o gancho de ter falado do trabalho de artesanato da Monica para apresentar uma defesa desse formato artístico tão menosprezado pelo próprio meio artístico, costumeiramente elitizado.

Foi a própria Mariana Berta que me falou da Monica, e além disso, ela também manifestou um interesse genuíno sobre dialogar e divulgar o trabalho desses artesãos, que é algo que Marina discute faz tempo, visto inclusive sua minimalista (porém, grandiosa) intervenção na Biblioteca da UDESC, presente no seu livro “Sagu”:

Foto: Livro “Sagu” de Mariana Berta

Nesse interesse, Berta me deixou algumas palavras que acho muito digno serem postas literalmente aqui, para repensarmos sobre aquilo que é ou não arte, ainda mais em nossa região:

“Também gostaria de saber os nomes das pessoas que pintam desenhos à mão nos fogão de lenha, das que fazem trançados de couro em laço, das que escrevem cartazes dos mercados, das que fazem biscuit pras compotas do direto do produtor, das que fazem chapéus e cestos de palha de trigo e de vara de vime…enfim, sei um desses nomes e ela se chama Maria Fritzen, vizinha lá da mãe, costureira e arteira da comunidade e com quem eu aprendi a ser artista.”

Mais uma vez, encerro essa lista assumindo e me desculpando pela ausência de um ou outro nome, e também mais do que aberto para receber os contatos de vocês sobre novos (e velhos) artistas que possam estar fazendo parte de um possível Volume 3 desta série.

Um comentário em “A Nuvem Colona está chamando chuva! (Vol. 2)

Adicione o seu

  1. Noossssa!

    Estamos discutindo bastante na faculdade sobre o que é arte, e essa frase linda da Berta diz muito sobre o que é arte e quem são os artistas!!

    Vontade de imprimir a frase e levar comigo hahaha

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: