12 de maio de 2007: a superação que virou nome de rua

Personagens da época lembram até hoje da virada histórica de Riqueza contra Caibi. Alguns deles afirmam categoricamente que resultado evitou que algo de ruim acontecesse. Data ficou marcada na história de Riqueza e virou nome de rua.

Por Carlos Miguel Benedetti

Independente do esporte, finais são sempre jogos cercados por muita emoção e tensão. Campeonatos menores, que reúnem toda a comunidade, além das emoções à flor da pele, envolvem também o senso de pertencimento das pessoas. A final do Campeonato Regional de Futsal entre em Caibi e Riqueza, em 2007, não fugiu disso. Personagens da época relatam até hoje que caso a virada histórica riquezense não acontecesse, “coisas ruins” podiam acontecer. A façanha foi tamanha que o dia 12 de maio, data da final, se transformou em rua em Riqueza.

“De verdade, nós fomos para o jogo acreditando que poderíamos fazer um milagre”, relembra Oldemar Bernardes, funcionário público e treinador de Riqueza no Campeonato Regional de Futsal em 2007.

Muito antes do “7 a 1” da Alemanha contra o Brasil, na Copa do Mundo de 2014, Riqueza, no Extremo Oeste de Santa Catarina era assombrada pelo resultado, após perder para Caibi. Mesmo depois da dolorida goleada na primeira partida da final, os jogadores riquezenses entraram em quadra pela honra. No segundo jogo, sem o goleiro reserva adversário para salvar gols em cima da linha e ao som de “1,2,3,4,5,6,7!”, o time foi campeão.

Longe das competições de expressão, como Copa Libertadores ou Campeonato Brasileiro, os Campeonatos Regionais transformam funcionários públicos, empresários e trabalhadores comuns em atletas e ídolos de suas cidades.

Em 2007 foi criado o programa de Secretarias de Desenvolvimento Regional (SDR), do Estado de Santa Catarina. No Extremo Oeste de Santa Catarina, a 29ª SDR, situada em Palmitos, além de fazer parte da rede de descentralização do governo estadual, organizava os Campeonatos Regionais de diversos esportes e categorias.

A 29ª SDR abrangia oito municípios: Águas de Chapecó, Caibi, Cunha Porã, Cunhataí, Mondaí, Palmitos, Riqueza e São Carlos. Esses eram os municípios que podiam disputar as competições organizadas pela Secretaria. Em 2007 aconteceu o primeiro Campeonato Regional de Futsal Amador da 29º SDR e apenas Águas de Chapecó não participou da competição.

A campanha

Jogar dentro de casa sempre é um diferencial em diversos esportes e no futsal não seria diferente. Na campanha do time de Riqueza em 2007, a equipe terminou o campeonato invicto dentro do Ginásio Municipal Romiro Adriano Utzig, o “Ginasião”. Foram cinco jogos, com um empate e quatro vitórias – contando a semifinal contra Palmitos e a final contra Caibi.

“Dentro de quadra, a nossa equipe tinha um foco, que era muito decisivo, principalmente na nossa casa. Aqui era diferente. Nós não considerávamos nem melhor, nem pior que nenhum outro time, mas dentro da nossa casa, nós éramos diferentes”, lembra Mello.

O time de Riqueza terminou a primeira fase com sobras. Com 13 pontos, líder isolado, mostrava um bom entrosamento dentro de quadra e se sobressaia no preparo físico em relação a outras equipes. “Nós treinávamos duas vezes na semana, eram bastantes treinamentos físicos. Nós corríamos na rua, fazíamos circuitos nas ruas de Riqueza. Fisicamente estávamos bem acima dos outros e isso foi a principal diferença”, salienta Everton.

Mesmo sem ter nenhuma formação na área de treinador, Oldemar conseguia tirar o máximo de seus atletas dentro de quadra. Com um time base do início ao fim do campeonato, o técnico coordenava o time explorando as principais características de cada peça por ele colocada.

Começava com a sua segurança embaixo do gol, o goleiro Fernando. À frente dele, o fixo Alexandre, que quase nunca passava do meio da quadra, mas basicamente construía um muro a cada jogo para defender a meta riquezense. Nas alas, a parte mais habilidosa do time. O canhoto e o destro, o experiente e o jovem. Na ala direita jogava o mais novo, Márcio, muito habilidoso com os pés, que focava as suas jogadas no ataque. Na esquerda, como ele mesmo brincou o “jovem senhor de 40 anos”, Rogério Mello. A experiência do time, que conseguia achar os “atalhos” da quadra e auxiliava muito na marcação. Na frente, na posição de pivô, o artilheiro do campeonato e o finalizador da equipe, Everton.

“Nós tínhamos bom jogadores na reserva, que nos ajudavam muito. Tinha o Ronaldo que era novo, com apenas 16 anos, e o Creme que era mais experiente, por exemplo”, lembra Oldemar.

Com o término da primeira fase, a semifinal estavam formada. Em confrontos de ida e volta, Riqueza encarava Palmitos, e Caibi pegava Mondaí.

Semifinal: um novo campeonato de apenas dois jogos

As fases “mata-mata” de um campeonato são muito diferentes da primeira fase. Como o nome mesmo diz é matar ou morrer. No campeonato em 2007, dois jogos decidiam o destino da equipe. Os sentimentos eram opostos. A alegria em poder disputar a final ou a decepção de estar a um passo da decisão e falhar. Assim como os sentimentos, os confrontos da semifinal também foram opostos. Enquanto um se decidiu calmamente no tempo normal com uma goleada para Riqueza, Caibi x Mondaí foi decidido só na prorrogação.

Na primeira partida da semifinal, Riqueza foi até Palmitos e enfrentou os donos da casa. Em um jogo equilibrado, a equipe palmitense fez 3 a 1. “Foi uma partida bem equilibrada, eles ganharam, mas não foram tão superiores assim”, relembra Everton.

Na mística de não perder em casa, a equipe de Riqueza entrou no “Ginásião”, em busca de seu principal objetivo: a final. Com treinamentos muito fortes durante a semana, a confiança do time e torcida eram grandes pela decisão inédita.

Com sobras, a equipe riquezense fez 7 a 2 em Palmitos e conquistou a vaga para a final. O lado negativo foi que dois titulares não jogariam a primeira partida da final. Márcio havia sido expulso e Everton, com menos de 30 segundos de jogo, fez uma falta em um jogador palmitense e recebeu o terceiro cartão amarelo.

“Foi até pensado. Nós combinamos de iniciar o jogo de volta aqui, desde o primeiro lance dividindo. O Everton foi para cima do goleiro, dividiu com ele e fez falta. Ele levou amarelo e não tinha dado nem 30 segundo de jogo e como era o terceiro, ele ficou de fora do primeiro jogo da final”, conta o técnico Oldemar.

A única coisa que passava pela cabeça dos jogadores de Riqueza era o time estar na final. Essa ideia foi passada durante os treinos da semana. A vontade de jogar era tamanha que pouco importava o individual. O conjunto, o time, estava sempre em primeiro lugar.

Arquivo pessoal: Oldemar Bernardes

“Nós tínhamos a ideia de que em casa nós íamos colocar pressão em Palmitos. Então combinamos durante o treino da semana, que na primeira bola que a equipe deles iria receber, colocaríamos pressão para roubar ela. Logo no primeiro lance, quando o jogador deles recebeu a bola, eu fui para cima, cheguei, fiz falta e recebi o cartão amarelo. Eu queria chegar a final, esse era meu objetivo, tanto que não me poupei na semifinal e fui suspenso do primeiro jogo da final”, relembra Everton.

Destino ou não, a partir desse jogo, o número sete se fez presente em todos os placares de jogos do time de Riqueza.

Para chegar à final, a equipe de Caibi precisou “suar” um pouco mais. A semifinal contra Mondaí foi disputada em dois jogos muito equilibrados. O técnico caibiense da época, João Henrique Demartini, lembra que a decisão da vaga aconteceu na prorrogação, em Caibi.

“No jogo da semifinal entre Caibi e Mondaí, nós tivemos um jogo muito disputado. Em Mondaí nós empatamos em 2×2 e depois jogamos em casa e empatamos em 3×3. Na prorrogação, com muito esforço nós ganhamos o jogo.”

O lance que mudou tudo

Cinco de maio de 2007. Ginásio de Esportes de Caibi, primeiro jogo da Final do Primeiro Campeonato Regional de Futsal Amador. Ginásio lotado e clima de esperança nas duas torcidas. Jogadores entram em quadra e a partida se inicia.

Pouco antes dos três minutos, Caibi começa a jogar com o seu goleiro adiantado. O atleta Mello de Riqueza percebe a estratégia caibiense, sai na diagonal, rouba a bola do adversário e sai livre, somente ele e o gol. Mello bate para fazer um a zero para Riqueza.

A bola estava próxima à trave caibiense, quando a partir do banco o goleiro reserva de Caibi, Diognes Cecon, invade a quadra. Ele corre até a bola e finge tropeçar nela, evitando o gol riquezense. A torcida de Caibi vibra como se fosse um gol. Indignados, jogadores e torcida de Riqueza pediam a validação do gol. O árbitro expulsa Diognes e dá falta indireta na entrada da área para Riqueza. Na cobrança, a bola não entra e o jogo continua 0 a 0.

“Não foi nada de momento”, fala Diognes, hoje consultor de vendas e goleiro de Caibi, que surgiu do banco de reservas para evitar o gol em cima da linha de Riqueza. Em um primeiro momento visto como “herói”, a atitude do goleiro serviu como combustível para a virada histórica da equipe riquezense.

“Eu tenho certeza que acabou influenciando para dar os 7 a 1, mas eu também tenho certeza que aquele lance fez com que nós fizéssemos o 7 a 0 em Riqueza”, fala Everton.

Em casa, a equipe caibiense precisava de um bom resultado para chegar ao jogo de volta com chances de título. Já Riqueza, desfalcada de dois titulares, foi com um time mais fechado e seguro para, nas palavras do técnico Oldemar, “tentar não perder o jogo de muito feio”.

Diognes lembra que tanto ele quanto o goleiro titular da equipe jogavam muito com os pés, e foi isso que aconteceu no início do primeiro jogo. Caibi pressionou e jogou com seus goleiros bem adiantados.

Perto dos três minutos de partida, a equipe de Caibi teve uma falta no ataque. O goleiro caibiense, Miranda, chutou com pouca força, a bola sobrou nos pés de Rogério Mello que correu em direção ao gol vazio de Caibi. “Eu adiantei, sai na diagonal, roubei a bola dele e sai sozinho. Passei do meio-campo e pensei ‘vou dar um chute daqui do meio e vou acertar’”, relembra Mello, que continua, “eu fiquei com medo de errar o gol, ai eu adiantei um pouco mais. Quando cheguei a uns 18 metros do gol, eu vi que não ia mais errar, eu larguei a bola um pouco mais forte. Quando eu vi que ela saiu na linha reta, eu já sai para a nossa torcida comemorar.”

O gol certo de Riqueza não foi comemorado no ginásio de Caibi. No momento que Mello virava as costas para o gol adversário, o goleiro reserva caibiense, Diognes, entrava em quadra e evitava o 1 a 0 para Riqueza.

Arquivo pessoal: Oldemar Bernardes

“O Melo chutou e a bola veio rolando. Eu pensei ‘agora é minha vez’ e sai correndo. Eu fingi que tropecei na bola, nem dei um chute, e ela quase entrou. A (nossa) torcida comemorou como se fosse um gol e o juiz não pensou duas vezes, e me expulsou”, conta Diognes.

Mello diz que só notou o que o goleiro reserva adversário havia feito quando chegou para comemorar próximo de onde a torcida de Riqueza estava. Ele olhou para trás e viu todo o tumulto que o lance havia gerado.

A equipe de Caibi sabia do perigo que corria em jogar com seus goleiros adiantados. Diognes afirma que nos treinamentos pré-final situações como essa foram comentadas.

“Não é que foi treinado, mas foi comentado. Se caso acontecer do adversário roubar a bola e vir para o gol, nós tínhamos um jogador para fazer isso, era um ala que quase nunca entrava. Nós tínhamos comentado que era ele que iria entrar na quadra e tirar a bola”, fala Diognes. Mas na hora que o lance aconteceu, o ala que estava “escalado” para salvar o gol apenas observou o lance, imóvel, despertando o senso de urgência em Diognes, que não titubeou e partiu para dentro da quadra.

O lance gerou um tumulto na quadra. A equipe riquezense queria a validação do gol, mas como falou Mello, “um corpo estranho entrou em quadra e evitou o gol”, sendo contra as regras a confirmação do 1 a 0.

“Emocionalmente nosso time se abalou e daí para frente foi o que aconteceu. Nós levamos 7”, comenta Oldemar. No último lance da partida, o juiz marcou um pênalti a favor de Riqueza. Mello bateu e definiu o resultado da primeira partida em 7 a 1 para Caibi.

Ao lembrar da final, Diognes acredita que o lance não foi fundamental para motivar a equipe adversária. Segundo ele, se Riqueza precisasse fazer 10 gols, faria.

“Se nós tivéssemos ficado campeões, até hoje as pessoas iriam lembrar que foi por causa desse lance. Muitos já disseram que a gente não ganhou por causa disso, que esse lance criou um clima diferente. Mas vai saber. Eu acho que o que vale foi o momento, sendo bom ou ruim”, afirma Diognes.

Suco de limão ou doce de leite

Muitas pessoas encaram a motivação como arte. No próprio meio esportivo, treinadores com um maior conhecimento tático e técnico perdem espaço para “professores motivadores”. Mas após sofrer uma goleada de 7 a 1, como motivar uma equipe? Para o treinador Oldemar, a resposta foi simples, suco de limão e doce de leite.

Durante a semana, antes do segundo jogo da final, a comissão técnica de Riqueza começou um trabalho de conversar individualmente com os atletas do time. Tanto o técnico Oldemar, como o auxiliar Clovis Bernardes motivavam os jogadores durante os treinos. Mas foi no sábado, 12 de maio, no vestiário do Ginásião, que o principal trabalho foi feito.

“No vestiário, eu fiz um trabalho de motivação. Eu preparei uma garrafa de suco de limão e comprei uma lata de doce de leite. Os atletas tomavam o suco de limão e comiam uma colher de doce de leite, ai eu falava: ‘Vocês querem sair do ginásio hoje, depois da partida, com esse gosto amargo do limão ou com o gosto do doce de leite?’”, lembra Oldemar. Motivação lembrada pelos atletas, que na hora de erguer o troféu não se esqueceram das palavras do treinador e comemoram com o doce de leite.

Arquivo pessoal: Oldemar Bernardes

Todo o clima de rivalidade com Caibi e o lance do goleiro Diognes foram fundamentais para o psicológico do time no jogo de volta. Mello lembra que algumas atitudes de dirigentes caibienses da época irritaram a torcida e jogadores.

“Então nós nos motivamos. Nosso objetivo era primeiramente não tomar gol e depois fazer até o final do primeiro tempo três gols. Depois, no segundo tempo conseguir os outros três, que precisávamos para os pênaltis. Foi incrível, a nossa torcida veio, compareceu e a cada gol da nossa equipe, o ginásio ‘explodia’ em felicidade”, lembra Mello.

Primeiro Tempo

Logo no primeiro lance da partida, após a saída da bola do meio-campo, Everton recebeu na ala direita do ataque e sofreu falta próxima a área da equipe de Caibi. Na cobrança, Rogério Melo tocou para Everton que chutou, mas a bola foi bloqueada pela defesa de Caibi. Na sequência, a bola sobrou para o fixo riquezense Alexandre, que chutou para fora.

Aos 3’, a bola é lançada do campo de defesa de Riqueza para o ataque, mas a defesa de Caibi tocou para a lateral. Na cobrança, Melo tocou para Márcio, livre no meio dos marcadores caibienses, mas o atleta de Riqueza chutou por cima do gol de Claudimiro Vincler, mais conhecido como Miranda. Um minuto depois, a equipe de Riqueza buscava a saída de bola rápida, o goleiro Fernando tentou o lançamento para Everton, mas a defesa de Caibi cabeceou. A bola sobrou para Cassiano, que finalizou, o chute desviou no fixo riquezense Alexandre e quase entrou.

Próximo ao 5’, em mais uma saída errada de Riqueza, Caibi quase abriu o placar. Melo tentou o passe no ataque para Márcio, mas o fixo de Caibi Pablo tirou. A bola sobrou na ala esquerda do ataque de Caibi com Fernando, que na cara do gol chutou a esquerda da trave do goleiro Fernando.

Quando o jogo se aproximava dos 7’, Riqueza abriu o placar para a virada improvável. Melo cobrou um lateral na ala direita para Márcio, que devolveu a bola. No papel de pivô, Everton se apresentou para o passe, recebeu e escorou para Melo, que com um belo chute fez o primeiro gol de Riqueza na partida.

Aos 10’, Riqueza chegava ao segundo gol. Após um chute para fora do ataque de Caibi, o goleiro Fernando colocou rapidamente a bola em jogo para Everton, que dominou no meio da quadra e tocou para Melo na ala direita.

Rogério Melo segurou a bola, levou para o centro da quadra e passou para Alexandre. O fixo de Riqueza recebeu, driblou o marcador e tocou para Everton, que dentro da área de Caibi dominou e chutou no canto direito do goleiro Miranda. Logo após o gol de Riqueza, a equipe caibiense quase descontou. A bola foi lançada para a área e o goleiro Fernando deu um soco nela. A bola sobrou no meio-campo e ela foi novamente jogada em direção à área. Dessa vez o pivo caibiense cabeceou encobrindo o goleiro Fernando, mas a bola foi para fora, rente ao travessão.

Depois de um erro de passe de Caibi, aos 13’, Riqueza quase conseguiu fazer o terceiro gol. Na tentativa de passe para Fernando, a bola foi nas mãos do goleiro riquezense, que rapidamente acionou Melo, que fazia às vezes a função do pivô. Ele escorou de cabeça na ala esquerda para Rodrigo, que havia entrado há pouco tempo no jogo. Dentro da área de Caibi, ele chutou, mas a bola foi por cima do gol de Miranda. Um minuto depois, após troca de passes do time de Caibi, a bola sobrou na ala direita com Cassiano que chutou forte e exigiu uma bela defesa do goleiro Fernando.

A virada, que antes da partida iniciar parecia improvável, começava a ficar cada vez mais real. Aos 15’, o time de Caibi tentou lançar a bola para o ataque, a defesa de Riqueza afastou para o meio da quadra. O atleta riquezense Márcio dominou, tentou o drible e tocou mais atrás para Alexandre. O fixo de Riqueza driblou um marcador e chutou, o goleiro Miranda ‘aceitou’ e levou o terceiro gol na partida.

Nesse momento da partida, Riqueza conseguiu chegar à metade dos gols que precisava. Como a primeira partida havia sido 7 a 1 para Caibi, a equipe riquezense necessitava uma vitória de seis gols de diferença para levar a decisão para os pênaltis. Mas mesmo com todo o segundo tempo pela frente, Riqueza ainda continuou no ataque e próximo aos 17’ marcou o quarto gol na partida. A bola chegou até as mãos do goleiro Fernando e na sua estratégia de repor a bola rapidamente ele encontrou Everton livre de marcação na área adversaria para fazer de cabeça o quarto gol de Riqueza.

Próximo ao fim do primeiro tempo, Caibi teve uma falta perigosa para cobrar na entrada da área de Riqueza. Na cobrança, o chute foi bloqueado e a bola saiu para escanteio. O time caibiense tentou uma jogada, mas a bola ficou com o atleta riquezense Alexandre. Dentro da área de Riqueza, ele dominou e deu um “ganchinho” para Rodrigo, que de cabeça passou para Márcio. Na entrada da área, Márcio chutou, mas a bola passou a esquerda do gol de Miranda.

Segundo tempo

A segunda etapa começou lá e cá. Nos primeiros segundos as duas equipes conseguiram criar boas chances e levaram perigo ao gol adversário. Após uma tentativa de ataque de Caibi, Everton disputou e roubou a bola no meio da quadra, ela sobrou para Alexandre que deixou para Márcio. O atleta de Riqueza levou e chutou, a bola passou muito perto do gol do goleiro Miranda.

Aos 2’ a equipe de Caibi quase marcou o seu primeiro gol. Melo tocou a bola para Márcio, que tentou devolver, mas o passe saiu errado. O pivô Fernando foi lançado e chutou, mas a bola foi a esquerda do gol do goleiro de Riqueza. Aos 8’, o time caibiense assustou novamente. O goleiro de Riqueza Fernando lançou a bola para Everton, que não dominou o fixo de Caibi, Pablo roubou a bola e trouxe para o meio.

Ele tocou a bola na ala esquerda para Fernando que chutou para a defesa do goleiro riquezense. Logo depois, após uma divida entre o goleiro de Caibi Miranda e o atleta de Riqueza Everton, o time riquezense ganhou um escanteio. Em cobrança rápida, Melo chutou em cima da defesa de Caibi e a bola foi para a lateral. Ele mesmo pegou a bola e cobrou por cima da defesa caibiense para Márcio, que de primeira chutou e marcou o quinto gol riquezense.

O que parecia improvável se tornou real aos 11’. Melo cobrou uma lateral na ala esquerda, Everton tentou dominar de cabeça, mas por um ‘encontrão’ da defesa de Caibi ele passou a bola para Márcio, que novamente de primeira, no ângulo, marcou o sexto gol de Riqueza, resultado que levava a partida para os pênaltis.

Nem o mais otimista torcedor de Riqueza daria um palpite de 7×0 no jogo de volta após a derrota por 7×1 em Caibi, mas o inesperado no esporte acontece e aconteceu no Ginásio Municipal Romiro Adriano Utzig. Melo pegou a bola para cobrar o lateral, lançou dentro da área para Rodrigo, que dominou, mas Everton apareceu e com um ‘sem pulo’ chutou no canto, sem chance para Miranda. Riqueza fazia o sétimo gol e sem precisar dos pênaltis, com esse resultado se tornava Campeão Regional de Futsal de 2007.

Um dos últimos lances da partida mostrou que o título não saia das mãos de Riqueza. Caibi, já com o goleiro-linha em quadra, lançou a bola dentro da área riquezense. Rodrigo cabeceou, Fernando defendeu, a bola voltou para Rodrigo, que dessa vez chutou e o goleiro de Riqueza tirou com a perna e depois com o braço o gol do time de Caibi.

Ao som de “1, 2, 3, 4, 5, 6, 7!”, Riqueza virava uma final aparentemente perdida e, em casa, erguia o troféu de campeão.

Ficha Tecnica

Final do Campeonato Regional de Futsal da 29ª SDR

Riqueza x Caibi

Local: Ginásio Romiro Adriano Utzig “Ginasião”, Riqueza (SC)

Data: 27 de Maio de 2007, Sábado

Horário: 20h30 (Horário de Brasília)

Riqueza: Alexandre Schenatto 4, Diego Locatelli 2, Ernani José Machado do Santos 3, Everton dos Santos 15, Fernando Furlan 12, Ivan Grunevald 19, Lizandro Felipetto 1, Márcio Fernando Hirsch Lauchner 5, Rodrigo Didomenico 16, Rogerio Oliveira de Mello 17, Ronaldo Gomes dos Santos 13 e Sidnei dos Santos 7. Técnico Oldemar Bernardes.

Caibi: Cassiano Ugolino 2, Claudiomiro Vincler 1, Cleuton Dall Agnol 14, Eloir Ronde 15,

Fernando Turcato 9, Juliano de Sordi 17, Leodonio Moresco 7, Pablo dos Santos 5, Rafael Matielo 10, Rodrigo Delazari 6, Samir Chieza 4, Samuel dos Santos 8 e Willian Turcato 3. Técnico João Henrique Demartini.

Gols: Rogerio Mello (Riqueza), Everton (Riqueza), Alexandre (Riqueza), Everton (Riqueza), Márcio (Riqueza), Márcio (Riqueza) e Everton (Riqueza).

O inimaginavel aconteceu

“Uma coisa particular minha, foi quando eu fiz o sétimo gol. Eu fiz o gol e ao invés de sair comemorando, eu me posicionei perto da torcida e só fiquei olhando. Olhei tudo em volta do ginásio, toda a torcida de pé, em uma euforia e felicidade. Isso me marcou muito eu conto e me arrepio de lembrar”, emociona-se Everton.

O árbitro do jogo apita o final da partida. Pessoas invadem a quadra. Torcida e atletas comemoram o campeonato incredulamente. Após tomar 7 a 1 no jogo de ida, Riqueza goleava Caibi na sua casa e se tornava Campeã Regional.

“Essa partida eu realmente irei contar para meus filhos e eles vão contar para os filhos deles, porque é uma coisa que ficou para história. Talvez o jogo não teria tomado tanta proporção se não tivesse ocorrido o lance do goleiro reserva de Caibi. Tudo parece que foi planejado para acontecer desta maneira, por isso ficou na história. Se tivesse sido um jogo normal lá e nós perdessemos de 7 a 1, não teria tanta atenção”, fala Everton sobre a final.

Além da euforia, outro sentimento pós-título foi o de alívio. Após uma ótima campanha na primeira fase e boa vitória na semifinal contra Palmitos, o resultado de 7 a 1 em Caibi faria cair em esquecimento todo o trabalho do time e comissão técnica no ano de 2007. Nas palavras do treinador Oldemar, o dever estava cumprido.

“Eu acho que foi o sentimento de dever cumprido, aquele alivio, tirar um peso das costas. Apesar de estar todo mundo confiando, todo mundo apoiando, se não tivesse ganhado, tivesse perdido o jogo de 7 a 1 lá e em casa não conseguisse o título, todo o nosso trabalho, a campanha na primeira fase, aquele bom jogo na semifinal, não ia valer de nada. Então tenho essa sensação de dever cumprido”, diz Oldemar.

O dia que virou nome de rua

No Brasil é costume que municípios coloquem o nome de suas ruas em homenagem a pessoas importantes na cidade, Estado ou País. Quase todo mundo já andou pela Getúlio Vargas, marcou um compromisso na Santos Dumont ou foi a um restaurante na Marechal Deodoro da Fonseca.

Outro costume no Brasil é o nome de ruas com datas comemorativas, como a Sete de Setembro – Dia da Independência do Brasil – ou a Quinze de Novembro – Dia da Proclamação de República. Em Riqueza, outra data em especifico ganhou homenagem. O dia Doze de Maio também virou rua no município.

Foto: Cleonir Benedetti

“Eles tinham uma dedicação muito grande. Eles faziam o treinamento no ginásio municipal e para melhorar o preparo físico, por muitas noites eles corriam pelas ruas de Riqueza e as pessoas iam aplaudindo eles. Essa dedicação mostrada pelos atletas foi cativando e mexendo com a população riquezense”, conta Valnei Luiz Kosczinski, vereador de Riqueza em 2007 e idealizador do projeto de lei que deu nome à rua.

Popularmente conhecido com Nei, o ex-vereador lembra-se da final entre Riqueza e Caibi com muita emoção. Ele estava no ginásio no dia 12 de maio e conta que no quinto gol da equipe riquezense, por ser emotivo, não conseguiu segurar o choro. “É um jogo que daqui a 50 anos com certeza irão se lembrar”.

Uma semana após a final, Nei foi até a Câmara de Vereadores de Riqueza e falou sobre a homenagem e o projeto de lei. “O 12 de maio virou rua em Riqueza, para que esse jogo nunca seja esquecido. O filho de um dos atletas de 2007, quando ver o nome da rua vai saber que o seu pai foi campeão, assim como toda a população riquezense sempre se lembrará”, fala Valnei.

A lei número 0399, de 22 de maio de 2007, foi aprovada por unanimidade na Câmara de Vereadores e denominou a Rua Número Um, no Bairro Cohab, como Rua 12 de Maio. Segundo Nei, a final entre Riqueza e Caibi não foi simplesmente um jogo de futsal, ela se mostrou muito mais que apenas uma decisão.

Rivalidade

“Eu analiso friamente que foi muito melhor ter perdido do que ter ganhado. Da maneira que estava a situação, eu não queria ganhar mesmo, por que havia um descontrole muito grande por parte de torcedores de Riqueza”, comenta o treinador de Caibi, Demartini.

Provocações, clima acirrado e confusão são ingredientes de uma boa final de campeonato. Em anos anteriores, jogos entre Riqueza e Caibi já haviam terminado em confusão. Mas foi em 2007, que a rivalidade entre os municípios ficou mais acirrada.

Todos os acontecimentos do jogo em Caibi deixaram atletas e torcida de Riqueza irritados. Um clima hostil e até certo ponto perigoso se criou no “Ginásião”, em Riqueza. Os riquezenses encararam o lance do goleiro reserva de Caibi com muita indignação. Todo esse sentimento foi levado para o jogo no dia 12 de maio.

“Eu tinha falado para eles, nós não podemos fazer aqui em Riqueza o que eles fizeram em Caibi. Nós temos que respeitar a torcida, precisamos ganhar o jogo dentro de campo. Não pode sair nenhuma mancha na vitória, se acaso ela viesse. Isso nós falávamos para os jogadores, conversávamos com a torcida, tanto que contratamos seguranças particulares, pedimos apoio para a polícia, para ficar na divisão das torcidas, para não acontecer nada”, relembra Oldemar.

Para os caibienses, a vitória de Riqueza por 7 a 0 foi fundamental para que uma tragédia não acontecesse. Por todo o clima criado pré-jogo, um possível título de Caibi, em solo riquezense poderia ter se tornado uma mancha na história dos dois municípios.

Em Riqueza, um provável título de Caibi não seria respondido por agressões. A “provável tragédia” contada pelos caibienses é vista como uma desculpa para explicar o ‘7 a 0’.

“Não, eu não acredito que pudesse ter acontecido uma tragédia. Por parte do que eu conheço do pessoal de Riqueza, pelo comportamento dos atletas que nós tínhamos no grupo, por tudo isso, eu acredito que não. Eu acho que é desculpa de perdedor, bem de verdade acho que é um pouco de desculpa de perdedor. Eles talvez pensaram assim, porque seria o que eles fariam em Caibi”, fala Oldemar sobre a chance de briga se Caibi tivesse saído campeão em 2007.

Passado o ano de 2007 e a final entre Riqueza e Caibi marcada no imaginário dos dois municípios e da região, o ano de 2008 chegou com o 2º Campeonato Regional de Futsal Amador da 29º SDR. Ironia do destino, ou não, Riqueza estava na final novamente. Dessa vez, contra Mondaí, a equipe riquezense perdeu o primeiro jogo, “apenas” de 4 a 0. Para um time, que reverteu um 7 a 1, os quatro gols levados na cidade vizinha não assustavam mais torcida e jogadores. No jogo de volta, pelo segundo ano consecutivo, o “Ginásião”, em Riqueza, foi testemunha de uma virada épica. Após uma vitória de 8 a 2, novamente os riquezenses puderam gritar “É Campeão!” em sua casa.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

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